quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Diálogo com o oriente


Foi explorando ao acaso em uma pequena livraria da cidade onde moro que tive a grata surpresa de encontrar um pequeno livro que tem me trazido ensinamentos muito preciosos e reflexões que gostaria de desenvolver... O livro se chama “Muito Além do Divã Ocidental” (Cultrix, 2005) e é uma coletânea de palestras dadas a estudantes e profissionais de psicologia ministradas pelo mestre budista Chogyam Trungpa.

A proposta desse livro é de trazer um conhecimento diversificado do que estamos acostumados no meio acadêmico do ocidente. Não é um livro de doutrina religiosa, pois como o próprio autor salienta, é um erro pensar em budismo como uma religião institucionalizada com seus códigos específicos. O diálogo pelo qual o livro propõe é um diálogo de busca pelo conhecimento. E os métodos budistas podem nos fornecer algumas reflexões bastante pertinentes para o desenvolvimento da psicologia enquanto ciência. Como ainda estou estudando o livro, nesse momento gostaria de tocar superficialmente nos ensinamentos aqui contidos e ressaltar dois aspectos que me parecem fundamentais para repensarmos algumas abordagens, em psicologia e em educação.  

Chogyam Trungpa relata que quando chegou para estudar em uma universidade no ocidente, duas coisas lhe chamaram bastante à atenção:

- O conhecimento no ocidente é mais direcionado para a teoria e pouco para a prática.

“Quando vim para o Ocidente – para a Inglaterra, em 1963 -, fiquei muito surpreso ao constatar que a psicologia ocidental dá muito mais ênfase à teoria do que à experiência.”

De fato, em uma formação comum em psicologia, aprendemos durante cinco anos sobre algumas linhas de pensamento, lemos muito, conhecemos muitas histórias de vida dos autores célebres, aprendemos os métodos, refletimos sobre temas, mas pouco nessa formação temos para desenvolvermos a nós mesmos. Não existe quase nenhum método nem exigência para que durante a formação tenhamos que entrar em contato com nossa própria psique de forma a nos conhecermos melhor. Pessoalmente, vivenciei algumas aulas nesse sentido nos primeiros anos de formação. É pouco, e pela falta de ênfase, essas aulas acabam sendo banalizadas. Para o budista, segundo Trungpa, a teoria é importante, mas sempre em equilíbrio com o desenvolvimento de si através da meditação. A meditação é o método proposto pelo budismo, mas podemos aqui no ocidente pensar em muitas outras formas de vivências capazes de nos impulsionar ao autoconhecimento. Dinâmicas de grupo bem conduzidas, psicodramas, psicoterapias...

O que me parece claro a partir dessa observação do autor é que não existe maneira de se colocar na posição de alguém que recebe outro ser humano para guia-lo em um processo de cura ou de educação se essa pessoa não tiver algum grau de conhecimento de seu próprio ser. Qual o valor de conhecer os significados de id, ego, superego, ou self, persona, sombra, se esses rabiscos teóricos não forem percebidos e vivenciados em si mesmo como coisas vivas e pertinentes à existência? Já dizia Jung, lá por volta da década de 20, que o grande problema da educação é que os próprios educadores não se educam, não amadurecem.

Nesse ponto, também podemos refletir a respeito da educação de uma maneira mais ampla, pois o conhecimento transmitido nas escolas também tende a seguir a mesma lógica. Que elementos a escola oferece ao estudante para que ele compreenda a dinâmica de sua própria mente, para que trabalhe suas dificuldades olhando para dentro de si mesmo antes de encarar os processos dos métodos de aprendizagem? O que a escola oferece ao aluno agitado, que não consegue se controlar, para que ele compreenda as nuances e as causas de seu próprio comportamento? Para destrinchar essa questão, seguirei com um segundo comentário de Trungpa sobre suas impressões ao vivenciar o ocidente pela primeira vez:

- A culpa é um elemento central no desenvolvimento da psicologia e da educação no ocidente.

“(...)foi uma espécie de choque para mim quando descobri a tradição ocidental do pecado original. (...)parece que a noção de pecado original não apenas permeia as ideias religiosas ocidentais como, na verdade, parece estar presente em todo o pensamento ocidental, especialmente no psicológico.”

E como opera esse mecanismo? A culpa para nós é tão comum que poucas vezes olhamos para esse fenômeno da forma como ele realmente é. E a culpa acaba sendo o centro de muitos bloqueios e incômodos emocionais que encontramos em pessoas que procuram psicoterapia. É interessante a perspectiva de Trungpa, pois mostra como age inconscientemente o mito do pecado original como se fosse algo absolutamente natural, humano. Mas através desse olhar, percebemos que a culpa como concebemos é somente parte de uma construção cultural que acabou se perpetuando e causando seus danos, sem questionamento, sem uma percepção clara de seus efeitos. O exemplo que o autor dá sobre isso na educação é pertinente:

“Os professores, por exemplo, frequentemente pensam que, se as crianças não se sentirem culpadas, não vão estudar com propriedade e por isso não vão se desenvolver como deveriam. Com isso, muitos professores acreditam que precisam exercer alguma pressão sobre as crianças, e a culpa parece ser uma das principais técnicas adotadas.”

O mecanismo do aprendizado baseado na punição tornou-se, portanto, o foco para alimentar o desempenho.  E também para moldar o comportamento. Agimos enquanto educadores punindo e culpando a criança por seus erros. O sentimento de culpa então é o alimento que fará a criança se comportar como gostaríamos que se comportasse. Não podemos pensar aqui somente em termos de êxito. A criança, através da culpa, pode estudar mais, pode se comportar melhor. Mas quais as consequências de se desenvolver uma mente que “funciona” através dos mecanismos de culpa? Na visão de Trungpa a culpa é um bloqueio e os erros não devem ser tratados com tanta ênfase. O que deve se enaltecer são as capacidades, a “bondade” inerente a todo ser humano.

Então, se pararmos para refletir através dessa perspectiva, pouco a escola (ou todos nós como educadores) oferece no que diz respeito ao autoconhecimento. Os comportamentos desviantes ou a falta de produtividade geralmente são julgados através de mecanismos punitivos. Tornam-se estigmas: Você é culpado por seus erros. O que devemos perguntar, e considero isso fundamental para a formação de qualquer ser humano, é quais as consequências desse modo de educar e de desenvolver a vida?

O que o budismo propõe para o ocidente, segundo Trungpa, é uma perspectiva que visa sempre o desenvolvimento da sanidade. Estamos desenvolvendo seres humanos saudáveis, felizes, donos de si, emocionalmente equilibrados, ou estamos nos tornando mestres em neuroses, depressões, baixa estima e falta de domínio sobre à própria existência? Talvez um tanto de meditação para todos nós, educadores, terapeutas, como propõe Trungpa, possa nos fazer enxergar a vida a partir de outras perspectivas... E nos trazer novas ideias.


“De acordo com a perspectiva budista, os problemas existem, mas são impurezas temporárias e superficiais que encobrem nossa bondade fundamental (tathagatagarbha)”


Um comentário:

  1. Um pouco menos de culpa para um pouco mais de sanidade mental e comportamental... Foi uma libertação para mim quando um dia, ao me desculpar por algo, uma amiga minha me disse; "sem culpas"... senti um imenso alívio. Anos depois um outro amigo olhou para mim _ um olhar severo _ e identificou a culpa como sendo o que estava me atrapalhando na situação em questão. Eles nunca chegaram a se conhecer, pelo menos não até agora, mas o que eles tinham em comum? Uma profunda vontade de conhecer-se e um completo desapego com esse sistema doutrinário que nos imbui da culpa para um eficaz controle social... A filosofia e as muitas horas de meditação foram fundamentais para minha vida, assim comecei a compreender melhor o que meus amigos procuraram me mostrar naquelas ocasiões, e assim fui capaz de dar um passo a diante como educadora de meus filhos e de meus alunos...
    Concordo, recomendo a todos educadores (pais e professores), não existe outro meio de evolução que não seja o de silenciar os muitos "barulhos" externos a fim de nos levar de encontro conosco mesmo para então podermos Ver de fato o que nossos novos tempos exigem de nossas atuações... Tudo mais é reprodução de velhos dogmas e um grande equívoco em novos tempos. Precisamos de menos culpas e mais responsabilidades.

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