Foi explorando ao acaso em
uma pequena livraria da cidade onde moro que tive a grata surpresa de encontrar
um pequeno livro que tem me trazido ensinamentos muito preciosos e reflexões
que gostaria de desenvolver... O livro se chama “Muito Além do Divã Ocidental”
(Cultrix, 2005) e é uma coletânea de palestras dadas a estudantes e
profissionais de psicologia ministradas pelo mestre budista Chogyam Trungpa.
A proposta desse livro
é de trazer um conhecimento diversificado do que estamos acostumados no meio
acadêmico do ocidente. Não é um livro de doutrina religiosa, pois como o
próprio autor salienta, é um erro pensar em budismo como uma religião
institucionalizada com seus códigos específicos. O diálogo pelo qual o livro
propõe é um diálogo de busca pelo conhecimento. E os métodos budistas podem nos
fornecer algumas reflexões bastante pertinentes para o desenvolvimento da
psicologia enquanto ciência. Como ainda estou estudando o livro, nesse momento
gostaria de tocar superficialmente nos ensinamentos aqui contidos e ressaltar dois
aspectos que me parecem fundamentais para repensarmos algumas abordagens, em
psicologia e em educação.
Chogyam Trungpa relata
que quando chegou para estudar em uma universidade no ocidente, duas coisas lhe
chamaram bastante à atenção:
- O conhecimento no
ocidente é mais direcionado para a teoria e pouco para a prática.
“Quando
vim para o Ocidente – para a Inglaterra, em 1963 -, fiquei muito surpreso ao
constatar que a psicologia ocidental dá muito mais ênfase à teoria do que à
experiência.”
De fato, em uma
formação comum em psicologia, aprendemos durante cinco anos sobre algumas
linhas de pensamento, lemos muito, conhecemos muitas histórias de vida dos
autores célebres, aprendemos os métodos, refletimos sobre temas, mas pouco
nessa formação temos para desenvolvermos a nós mesmos. Não existe quase nenhum
método nem exigência para que durante a formação tenhamos que entrar em contato
com nossa própria psique de forma a nos conhecermos melhor. Pessoalmente,
vivenciei algumas aulas nesse sentido nos primeiros anos de formação. É pouco,
e pela falta de ênfase, essas aulas acabam sendo banalizadas. Para o budista,
segundo Trungpa, a teoria é importante, mas sempre em equilíbrio com o
desenvolvimento de si através da meditação. A meditação é o método proposto
pelo budismo, mas podemos aqui no ocidente pensar em muitas outras formas de
vivências capazes de nos impulsionar ao autoconhecimento. Dinâmicas de grupo
bem conduzidas, psicodramas, psicoterapias...
O que me parece claro a partir dessa
observação do autor é que não existe maneira de se colocar na posição de alguém
que recebe outro ser humano para guia-lo em um processo de cura ou de educação
se essa pessoa não tiver algum grau de conhecimento de seu próprio ser. Qual o
valor de conhecer os significados de id, ego, superego, ou self, persona,
sombra, se esses rabiscos teóricos não forem percebidos e vivenciados em si
mesmo como coisas vivas e pertinentes à existência? Já dizia Jung, lá por volta
da década de 20, que o grande problema da educação é que os próprios educadores
não se educam, não amadurecem.
Nesse ponto, também
podemos refletir a respeito da educação de uma maneira mais ampla, pois o
conhecimento transmitido nas escolas também tende a seguir a mesma lógica. Que
elementos a escola oferece ao estudante para que ele compreenda a dinâmica de
sua própria mente, para que trabalhe suas dificuldades olhando para dentro de
si mesmo antes de encarar os processos dos métodos de aprendizagem? O que a
escola oferece ao aluno agitado, que não consegue se controlar, para que ele
compreenda as nuances e as causas de seu próprio comportamento? Para destrinchar
essa questão, seguirei com um segundo comentário de Trungpa sobre suas
impressões ao vivenciar o ocidente pela primeira vez:
- A culpa é um elemento
central no desenvolvimento da psicologia e da educação no ocidente.
“(...)foi
uma espécie de choque para mim quando descobri a tradição ocidental do pecado
original. (...)parece que a noção de pecado original não apenas permeia as
ideias religiosas ocidentais como, na verdade, parece estar presente em todo o
pensamento ocidental, especialmente no psicológico.”
E como opera esse mecanismo?
A culpa para nós é tão comum que poucas vezes olhamos para esse fenômeno da
forma como ele realmente é. E a culpa acaba sendo o centro de muitos bloqueios
e incômodos emocionais que encontramos em pessoas que procuram psicoterapia. É
interessante a perspectiva de Trungpa, pois mostra como age inconscientemente o
mito do pecado original como se fosse algo absolutamente natural, humano. Mas
através desse olhar, percebemos que a culpa como concebemos é somente parte de
uma construção cultural que acabou se perpetuando e causando seus danos, sem
questionamento, sem uma percepção clara de seus efeitos. O exemplo que o autor
dá sobre isso na educação é pertinente:
“Os
professores, por exemplo, frequentemente pensam que, se as crianças não se
sentirem culpadas, não vão estudar com propriedade e por isso não vão se
desenvolver como deveriam. Com isso, muitos professores acreditam que precisam
exercer alguma pressão sobre as crianças, e a culpa parece ser uma das
principais técnicas adotadas.”
O mecanismo do aprendizado
baseado na punição tornou-se, portanto, o foco para alimentar o desempenho. E também para moldar o comportamento. Agimos
enquanto educadores punindo e culpando a criança por seus erros. O sentimento
de culpa então é o alimento que fará a criança se comportar como gostaríamos que
se comportasse. Não podemos pensar aqui somente em termos de êxito. A criança,
através da culpa, pode estudar mais, pode se comportar melhor. Mas quais as consequências
de se desenvolver uma mente que “funciona” através dos mecanismos de culpa? Na
visão de Trungpa a culpa é um bloqueio e os erros não devem ser tratados com
tanta ênfase. O que deve se enaltecer são as capacidades, a “bondade” inerente
a todo ser humano.
Então, se pararmos para
refletir através dessa perspectiva, pouco a escola (ou todos nós como
educadores) oferece no que diz respeito ao autoconhecimento. Os comportamentos
desviantes ou a falta de produtividade geralmente são julgados através de
mecanismos punitivos. Tornam-se estigmas: Você é culpado por seus erros. O que
devemos perguntar, e considero isso fundamental para a formação de qualquer ser
humano, é quais as consequências desse modo de educar e de desenvolver a vida?
O que o budismo propõe
para o ocidente, segundo Trungpa, é uma perspectiva que visa sempre o desenvolvimento
da sanidade. Estamos desenvolvendo seres humanos saudáveis, felizes, donos de
si, emocionalmente equilibrados, ou estamos nos tornando mestres em neuroses,
depressões, baixa estima e falta de domínio sobre à própria existência? Talvez
um tanto de meditação para todos nós, educadores, terapeutas, como propõe Trungpa,
possa nos fazer enxergar a vida a partir de outras perspectivas... E nos trazer
novas ideias.
“De acordo com a
perspectiva budista, os problemas existem, mas são impurezas temporárias e
superficiais que encobrem nossa bondade fundamental (tathagatagarbha)”

Um pouco menos de culpa para um pouco mais de sanidade mental e comportamental... Foi uma libertação para mim quando um dia, ao me desculpar por algo, uma amiga minha me disse; "sem culpas"... senti um imenso alívio. Anos depois um outro amigo olhou para mim _ um olhar severo _ e identificou a culpa como sendo o que estava me atrapalhando na situação em questão. Eles nunca chegaram a se conhecer, pelo menos não até agora, mas o que eles tinham em comum? Uma profunda vontade de conhecer-se e um completo desapego com esse sistema doutrinário que nos imbui da culpa para um eficaz controle social... A filosofia e as muitas horas de meditação foram fundamentais para minha vida, assim comecei a compreender melhor o que meus amigos procuraram me mostrar naquelas ocasiões, e assim fui capaz de dar um passo a diante como educadora de meus filhos e de meus alunos...
ResponderExcluirConcordo, recomendo a todos educadores (pais e professores), não existe outro meio de evolução que não seja o de silenciar os muitos "barulhos" externos a fim de nos levar de encontro conosco mesmo para então podermos Ver de fato o que nossos novos tempos exigem de nossas atuações... Tudo mais é reprodução de velhos dogmas e um grande equívoco em novos tempos. Precisamos de menos culpas e mais responsabilidades.