sábado, 10 de janeiro de 2015

Mudança



Caros leitores,

Este blog ficará temporariamente sem atualizações. Estou montando um website para divulgação do meu trabalho clínico e estarei em breve transferindo os artigos do Escola da Essência para o site, que terá conteúdo mais amplo e novas publicações.

Assim que estiver tudo pronto, divulgarei aqui o link.

Agradeço todos que passaram por aqui e contribuíram com suas reflexões.

Até logo,


Rafael Ladenthin

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Por que a escola não muda?




Ouvi a seguinte pergunta em uma palestra ministrada por uma pedagoga: “Porque a escola não muda?”. Observando o discurso da palestrante, e os comentários da plateia, formada em sua maioria por outros pedagogos, formulei minha própria inquietação: “Porque os educadores não mudam?”.

A sociedade exige que escola seja eficiente. Essa é uma necessidade do modelo vigente. E essa eficiência, pela lógica desse próprio sistema, significa aquisição de conhecimentos. Alfabetizar corretamente, interpretar textos corretamente, saber calcular e daí por diante aprofundar todos os outros saberes das áreas já determinadas pelas cartilhas escolares.

Esse é um paradigma? Podemos realmente pensar que esse modelo educacional não é o suficiente, mas ainda sim ele deve suprir as necessidades de uma sociedade capitalista, tecnocrata, cada vez mais necessitada de pessoas qualificadas. O sistema educacional não vai tomar outros rumos apenas por conta de ideais ou por teorias desenvolvidas em outros tempos.  Ele vai continuar exigindo eficiência, que as crianças aprendam no tempo determinado e que sejam capazes de se qualificar no futuro.

Então escuto a respeito de tentativas de se criar outros modelos de ensino, mas que acabam sempre sendo comparados com modelos tradicionais bem aplicados, e sempre no sentido de demonstrar que em termos de eficiência ainda é mais interessante o sistema de avaliação por notas, de pressão pela punição e de disciplinas de conhecimento bem definidas.

Eis a armadilha: o discurso vence pelos números, e o estado tende a conservar o que é mais fácil de ser avaliado. O contrassenso aqui são os outros fatores que precisam ser observados. O ensino tradicional não atende mais as expectativas das crianças de nossos tempos (nem entrarei no mérito se de fato algum dia esses modelos atenderam algum tipo de expectativa). E a pressão pelos resultados espirra as mais bizarras consequências... Vejamos:

Parece que vivemos uma epidemia da falta de atenção. A medicina moderna encaixotou esse fenômeno em um suposto transtorno psiquiátrico, o já famoso TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção). Por definição, nessa linha, a criança desatenta sofre de uma patologia, de origem orgânica. O problema é ela mesma. E existe um medicamento para tratar a questão, o metilfenidato, ou Ritalina. Esse medicamento passou a ser largamente consumido por crianças e adolescentes em pouquíssimos anos. Podemos dizer hoje que uma parcela significativa das próximas gerações já está sendo estigmatizada por esta patologia. E a escola? Ela não mudou, continua a mesma.

O problema é que o metilfenidato é um medicamento de efeitos colaterais bastante agressivos. E o pior deles não é nem de origem orgânica, mas sim uma questão da mente. Uma patologia psiquiátrica não é como uma patologia comum. Uma infecção você cura com um antibiótico, e pronto. Mas, uma questão mental... Não é só uma disfunção do cérebro (que por sinal, nunca foi cientificamente comprovada no caso do TDAH). Percebam que quando alguém diz que você tem um “probleminha” da ordem da psique, está se referindo a sua existência, seu modo de ser. Portanto, esse é um estigma bastante significativo. O que você é, veja bem, não está certo. Você toma esse remedinho aqui, que você vai ser diferente (mais atento, mais comportado).

É alarmante esse fato, e as consequências já podem ser medidas, quantificadas. Muitos dos que utilizaram Ritalina na infância tornaram-se usuários de outros “inas” na fase adulta. Cafeína, taurina... cocaína. O que não pode ser quantificado só pode ser percebido pelos profissionais que trabalham com essas crianças. As perdas das características que lhe são próprias, inclusive da capacidade criativa, é algo bastante triste de se ver e de engolir.

Mas porque as crianças estão desatentas? Esse é um fato a ser pensado. E precisa ser feito de forma bastante aprofundada, pois o que tenho ouvido por aí são discursos que se fixam em demasia em ideais políticos e sociais e que pouco observam a realidade ao redor. É verdade que cada criança é um ser, com uma personalidade singular, com capacidades que lhe são próprias e com vivências muito particulares. Mas relativizar demais o desenvolvimento de uma criança, de um ser humano, não ajuda nem a escola nem mesmo a própria criança. Não dar importância aos fatores universais que constituem a espécie humana é desconsiderar observações científicas pertinentes que muito contribuem para o entendimento de cada processo de desenvolvimento, incluindo seus obstáculos.

A criança desatenta ou rebelde não deve ser estigmatizada como anormal, assim como também não deve ser estigmatizada diante de seus desafios, normatizando também suas incapacidades momentâneas. Relaxar demais no tempo da criança aprender acaba se tornando uma medida que tende a tornar muito superficial a reflexão que a escola deve realizar a respeito de seus próprios métodos. De um extremo ao outro, ou a escola entrega a criança ao psiquiatra, ou simplesmente não cria os mecanismos adequados para que a criança enfrente seus desafios, de acordo com o momento adequado ao seu grau de desenvolvimento.

Novos métodos de ensino não podem vigorar sem considerar as exigências de seu meio social. Eles precisam demonstrar seu grau de excelência, apontando as falhas do antigo sistema. A realidade educacional em nosso país (e na maior parte do mundo) precisa atentar para as consequências diretas de seus métodos educacionais:  a falência moral, o aumento das intolerâncias, o desgosto pelo conhecimento, a falta de atualização em relação à informação e tecnologias modernas, a padronização extrema dos meios de transmissão do conhecimento que acaba por excluir os alunos que possuem características que não se adequam aos métodos, dentre outras questões que precisam ser profundamente consideradas para que a escola prepare as novas gerações no sentido de edificar um mundo mais ético e sustentável.

Enquanto a escola não muda, os alunos estarão cada vez mais desatentos. Na era da informação e do conhecimento em massa, a escola e seus métodos arcaicos serão cada vez mais desinteressantes. O problema não está nas crianças. É preciso reformular a escola para que acompanhe as transformações de nossa sociedade. E para tanto o conhecimento da criança e suas etapas de desenvolvimento precisam ser considerados. Com essa sabedoria, poderemos demonstrar que a criança desatenta precisa de novas práticas para que possam aprender a lidar com a própria mente. É na busca da excelência no processo de educar que a Ritalina perderá seu conceito, sua importância.

Uma nova escola para que perdure e seja aceita pela sociedade deverá ser uma escola que amplie ainda mais a capacidade dos seus alunos de adquirir conhecimento e, principalmente, ter gosto pelo conhecimento. A grande questão que os educadores precisam focalizar no momento é de como resgatar nas crianças de hoje a vontade absoluta pelo conhecer, a curiosidade que lhes é tão natural. Ensinar as matérias fundamentais não pode mais ser algo distinto dos sentidos das existências particulares de cada um. O conhecimento precisa estar atrelado ao desenvolvimento pessoal de uma maneira que faça sentido e que seja absolutamente livre de pressões punitivas. Uma nova ética se faz necessária através dos exemplos que a própria escola deve cultivar. A busca pelo conhecimento precisa ser demonstrada pela força da própria natureza, através do saber a respeito do desenvolvimento da criança.


Reconhecer que os modelos educacionais vigentes, estes mesmos que são adotados desde o final do século XVII, são causas diretas das manifestações negativas no aprendizado das crianças é um primeiro passo na formulação das questões essenciais que precisam ser debatidas para que a escola se transforme, de fato. E essa nova escola deve ser plenamente capaz de demonstrar que o grau de aprendizado pode se elevar através de práticas mais inteligentes. Está na mão dos educadores a disposição para transformar.


Para finalizar essa reflexão, deixo abaixo link de um artigo sobre os efeitos da meditação nos processos psicossomáticos e cognitivos. Essa prática é apenas uma das ideias possíveis de se utilizar para o desenvolvimento de crianças e jovens que necessitam aprender a lidar com a própria potência de viver:

http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1414-98932009000200006&script=sci_arttext


quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Intolerância (II): a repressão do feminino


(Continuação das reflexões sobre intolerâncias)

Esse fragmento de um texto da antiguidade que apresento abaixo mostra um entendimento universalista do arquétipo da Grande Mãe, divindade reverenciada desde os primórdios da civilização (pra lá de 7.000 anos antes de cristo). Desde aqueles tempos, o culto à Deusa e ao feminino foi sendo suprimido pela consciência patriarcal, desenvolvendo os modos de pensamento e de convivência que a sociedade ocidental sustenta até os nossos tempos. O feminino arquetípico, hoje representado como símbolo na Virgem Maria, perdeu muitas de suas facetas, podendo-se mostrar apenas com o que interessa ao patriarcado: a subserviência, a devoção, a misericórdia, a pureza, a virgindade...

Pois que essas faces também são faces desse arquétipo, mas como na natureza, onde tudo é movimento contínuo, a Deusa também se transmuta na roda da existência, sendo a rainha da vida e da morte, da luz e da sombra, ela trás em sua força todas as potências e devires naturais de cada um dos filhos da Terra. Ao renegar esse arquétipo, o ser humano passou a priorizar o desenvolvimento da consciência e da razão, deixando na escuridão todos os tormentos de sua alma. Deixou de olhar para dentro de si para acreditar no dogma da fé imposta e institucionalizada. Passou a chamar de demônio e de mal seus impulsos primais, como se pudesse simplesmente descola-los do próprio corpo.

A pressão que se faz para reprimir de dentro o que nos ensinam a rejeitar se vê projetada nas relações de poder, nos corpos enrijecidos, nas ideias inflexíveis, nos medos, nos muitos medos, nos tantos medos que os vemos na arquitetura das cidades, nos olhares desconfiados, na forma como educamos as crianças... E essa sociedade patriarcal, sem sua mãe, nem sabe mais o que é ser humano - fica se questionando: “mas isso é humano?”.

Se hoje o universalismo é um movimento importante na transformação de muitos dos paradigmas da sociedade ocidental, vejamos, através desse texto, que esse não é um conceito novo, mas algo que precisa ser resgatado através de existências que também acolham seus opostos, que permitam que a vida se desenvolva em sua integridade, na aceitação de prazer e dor, luz e sombra, vida e morte. Reconectar-se com sua própria natureza, e à natureza que o circunda, é o desafio que o homem deve se propor nesse momento de crise. O ser humano que busca equilibrar suas forças psíquicas, aceitando os fatos naturais da existência, torna-se mais capaz de aceitar a própria diversidade da vida. E estará mais receptivo ao outro, mesmo através de suas diferenças. Perceber que as intolerâncias são fatos consequentes do tipo de cultura que se desenvolve no ocidente é um primeiro passo para buscarmos uma revolução em nosso pensar que permita convivermos com mais harmonia.

“Sou aquela que é a mãe natural de todas as coisas, senhora e soberana de todos os elementos, a progênie original dos mundos, principal dos poderes divinos, rainha de todos os que estão no inferno, comandante daqueles que habitam o céu, manifestada unicamente sob a forma de todos os deuses e deusas. À minha vontade disponho os planetas do céu, os saudáveis ventos marítimos e os silêncios deploráveis do inferno; meu nome, minha divindade é adorada por todo o mundo, de diversas maneiras, em costumes variados e por muitos nomes.

Pois os frígios que são os primeiros de todos os homens chamam-me Mãe dos deuses do Pessinus; os atenienses, autóctones, de Minerva Cecrópia; os cipriotas, cingidos pelo mar, de Vênus Pafiana; os cretenses sagitíferos, de Diana Dictina; os sicilianos, que falam três línguas, de Prosérpina Estígia; os nativos de Elêusis, de Ceres Acteana; para alguns Juno, para outros Belona e outros Hécate, para outros ainda Ramnúsia. Já ambos os tipos de etíopes que habitam o Oriente e são iluminados pelos raios do sol da manhã e os egípcios, excelentes em todas as espécies de doutrinas antigas e acostumados a adorar-me em suas próprias cerimônias, chamam-me pelo meu verdadeiro nome, Rainha Ísis.”


Palavras da Deusa Ísis dirigidas a seu iniciado Apuleio (150 D.C.), em citação retirada de “As Máscaras de Deus – Mitologia Ocidental”, de Joseph Campbell

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Intolerância


Resolvi arriscar propor uma fenomenologia da intolerância, pois tenho me debruçado em pesquisas sobre o tema na área de psicologia e não obtive êxito ainda no eixo de pensamento que gostaria de alcançar. A forma como esse tema tem sido tão intensamente abordado nesses tempos de eleições tem produzido um grande povoamento de ideias em nossa sociedade sobre diversos fenômenos que atravessam a questão da intolerância. E ao mesmo tempo, pululam os casos de violência, da verbal, moral, até a agressão, de fato.

Infelizmente, todo esse debate tem sido empobrecido pela tendência de se conduzir as soluções ao campo da lei ou do direito. Fato é que em uma sociedade tão grande e complexa como a nossa, a lei deve ser a salvaguarda dos direitos individuais de cada um – principalmente em um país que se pretende se desenvolver como democrático. Mas a lei por si só não educa nem faz compreender as causas que levam hordas de seres humanos a direcionarem toda a sua violência a apenas um supostamente por conta de um comportamento que não lhes agrada. Para isso, é preciso elevar um pouco mais o debate, e termos coragem o suficiente de reconhecer a origem dessas causas, mesmo que isso desagrade uns tantos.

Procurar a essência da intolerância exige um salto além dos discursos e das conceituações que percorrem o tema. Pois, quando pensamos em intolerância ou no intolerante, rapidamente nos relacionamos com as ideias correntes que enaltecem o aspecto moral envolvido nesses atos: a desumanidade, a ignorância, a falta de respeito, a discriminação. Ocorre que essas linhas de pensamento não têm sido muito eficientes quando o intento é de combater a própria intolerância. Pois, no que diz respeito ao intolerante, ele mesmo possuí suas próprias justificativas morais.

E o embate moral não se encerra. No campo verbal, todos querem fazer valer seu direito de expressão. E se embasam na lei para tanto. De alguma forma, todos querem ser e expressar o seu ser, seja ele como for. O religioso fervoroso quer seu direito de praticar a intolerância em nome do que considera ser a lei maior, a lei de deus, e a vítima quer o seu direito de ser o que exatamente é, da forma como nasceu ou da forma como escolheu percorrer a vida. E temos observado que essa fragmentação acaba por produzir e transpassar as violências presentes em cada um ao ponto de também tornar a vítima um condutor de outras intolerâncias. Alguns até defendem a violência como meio de produzir uma virada de paradigmas. Mas a história conta outros contos... A violência apenas se transforma, alternando os papeis dos opressores e dos oprimidos.

Também essa é a lógica de nosso sistema mental. Conteúdos reprimidos jamais se silenciam, apenas se transformam em outras manifestações, muitas vezes mais incômodas. Essa é a face particular da intolerância que criamos em relação a nós mesmos. Ao rejeitarmos alguns aspectos de nosso ser, os direcionamos para a inconsciência e por eles somos muitas vezes conduzidos. É por essa razão que a grande maioria das técnicas terapêuticas procura ampliar o grau de consciência do indivíduo. Possibilitar caminhos que o conduza à reflexão de si mesmo, para que integre à consciência o que necessita ser desenvolvido.

Proponho uma fenomenologia da intolerância, pois somente com um estudo profundo e metodológico do termo poderemos entender esse fenômeno enquanto manifestação psicológica do ser humano e não apenas através dos embates morais que se criam de acordo com suas consequências. A intolerância precisa ser analisada pelo que ela é: como um ato de oposição violenta ao outro, ao diferente. Não pode ser confundida com a crítica, não pode ser confundida com discordância de ideias. Ela precisa ser identificada em sua essência. No seu impulso de afronta, de repulsão, de repressão, de agressão. A intolerância precisa ser compreendida para não ser ocultada pelos discursos floreados ou pela justificativa dogmática. Precisamos, de forma muita clara, compreender a diferença entre se debater uma ideia - um caso, uma condição de vida - do ato de se propagar uma ideia pelo mesmo impulso intolerante que a originou. Nessas condições, se faz com mais clareza o processo de discernir a real intenção do ato intolerante.

Com mais discernimento, não existe argumento em prol da liberdade de expressão ou de dogmas religiosos que possam ocultar essas intenções. A intolerância estará lá, visível, para ser observada da forma como ela é. Do sujeito que mal sabe se expressar e que agride de fato ao político falastrão, a intolerância percorre seus rumos, multiplicando-se em seus discursos e suas vis consequências.

Não podemos nos esquivar ao fato de que a intolerância é parte da constituição do humano, pois ela existe e se faz presente nas relações humanas, mas também devemos considerar que existem nesse momento no planeta sociedades que atingiram níveis de desenvolvimento em que a intolerância se faz muito menos presente. E precisamos reconhecer, sobretudo, que esse país em que vivemos é consideravelmente intolerante. Que movimento então, já, neste momento presente, podemos realizar, para disparar um processo de transformação dessa cultura?


Gostaria de, no próximo texto, estender essa reflexão para a educação, que é alicerce pelo qual a intolerância se cria e também pela qual pode cessar. 

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Prosperidade e desenvolvimento



Gostaria de tocar no tema do conceito de prosperidade, pois observo ser de relevância, em especial nos processos de terapia de criança e adolescentes, pois se têm mostrado frequente e gerado conflitos significativos, no que tange ao indivíduo, mas também nas relações familiares e nas instituições de ensino. Não irei discorrer especificamente sobre o conceito em si e suas múltiplas interpretações, mas apenas relacioná-lo com os aspectos negativos de suas distorções na infância e na adolescência. 

Prosperar é bom, seja qual for o sentido em que se prospera. É esperado que cada ser busque prosperar nas áreas da vida que escolheu se desenvolver. Buscar excelência e ser recompensado por isso é uma forma de se autovalorizar. Nesse sentido, não importa se a prosperidade é financeira, ou se está no campo do reconhecimento, ou da produção artística, da caridade, da família ou outras áreas, o que interessa é o quanto o indivíduo sente que prosperou, sente que se satisfaz com suas ações e sente que o retorno dessas ações são justos.

Ocorre, no entanto que, em uma sociedade que valoriza o consumo e certos estilos específicos de vida, encontramos atravessado em todas as classes sociais noções distorcidas no que se refere ao conceito de prosperidade. E esse fato fica mais nítido quando observarmos esse fenômeno se manifestando em crianças e em adolescentes. Prosperar significa também aumentar o seu campo de poder, de influência, de mobilidade social. Mas transmitir uma imagem de alguém próspero por si só não garante esse poder. Em geral, essa ilusão dura pouco e tem como consequências conflitos internos e externos que desviam o ser de sua meta, de seus propósitos mais íntimos. Crianças e adolescentes tendem a serem mais influenciados e naturalmente seguem os exemplos de seu contexto familiar e social.

Quando a criança ou adolescente é de baixa renda familiar, observa-se uma tendência crescente de uma necessidade de afirmação através da chamada “ostentação”. A imagem de prosperidade se constrói nesses casos no uso de objetos de valor, como roupas, celulares, etc. Também a mídia trata de criar e acelerar essa onda com músicas que pregam quase que como doutrina vincular valor pessoal ao valor de consumo. Os problemas oriundos disso variam. Tenho tido contato com jovens que demonstram verdadeira tristeza e apatia quando não conseguem ter alguma roupa de marca ou um celular de ponta. Não obstante, ainda cobram seus familiares por conta dessas frustrações. Cobram, muitas vezes, ao ponto de se tornarem agressivos. Certa vez uma mãe, moradora de uma favela de São Paulo, me contou o quanto estava trabalhando para dar conta de comprar os tênis de marca que o filho de 12 anos queria. Eram tênis de valores altíssimos. E argumentava que se não comprasse o menino ficaria bravo e não iria querer ir pra escola, pois os colegas caçoavam de quem usasse tênis velhos. A vestimenta desse menino, comprada em um shopping próximo à favela e frequentado por famílias ricas, apenas cria uma imagem que oculta sua real condição de vida. E não estou me referindo ao fato dele viver em favela. Mas sim às condições que poderiam proporcionar a esse menino uma possibilidade de se preparar para ser aquilo que ele quiser ser, e verdadeiramente prosperar. Percebam que o investimento possível que a família faz para essa criança recaí no consumo e não na aquisição de conhecimento. 

No caso de crianças e jovens que nascem já em famílias que prosperam financeiramente, os aspectos negativos que acabam emergindo por conta dessa condição geralmente partem dos próprios pais, que também acabam distorcendo o conceito de prosperidade nos exemplos que transmitem aos filhos. O consumismo exacerbado e sem significado acaba gerando um ciclo vicioso do querer confundido com o poder. A possibilidade de ter muitas coisas não significa a preexistência de um poder pessoal. Este só pode ser atingido através de um desenvolvimento interno que traga maturidade e autoconhecimento. E estes não são atributos que uma criança possuí. E é justamente por isso que ao serem exacerbadamente influenciadas pelo consumismo, acabam confundindo o poder interno que possuem, mas que precisa ser desenvolvido, com o êxito do ter, de comprar, de ostentar, de acumular. 

Infelizmente, para uma criança ou adolescente, desviar o foco do seu real desenvolvimento para o consumo é devastador no que se refere à aquisição de valores éticos fundamentais para o bom convívio em sociedade. Crianças assim são birrentas, arrogantes e gostam de mostrar que se destacam somente por conta de sua condição financeira e das coisas que podem ter. E se não forem despertadas para esses fatos, tornam-se adultos com as mesmas características, acentuando-se o fato de que a birra e a arrogância do adulto causam danos muito mais sérios para a sociedade.

Esses são alguns fenômenos gerais que permeiam o tema. Existem outras complexidades que também podem ser observadas a partir dessas questões, mas em essência, podemos ver que a sociedade tem faltado na educação dos seus filhos nos exemplos que transmite sobre o que de fato significa prosperar. Dá-se muito valor ao momento e as coisas e não ao caminho do desenvolvimento. Uma mente que se ocupa somente em comprar, aparentar, em ter, não tem espaço para valorizar o conhecimento acadêmico e o conhecimento ético. E não tem espaço para vasculhar em seu íntimo qual a verdade do seu próprio ser, e quais caminhos tomar para que essa verdade se manifeste e prospere nos lugares onde tocar. Sem esse norte, estamos criando uma sociedade violenta, superficial, culturalmente e materialmente pobre. E não é somente o estado responsável por isso. Coletivamente, estamos aceitando passivamente as influências que empobrecem a alma das próximas gerações.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Democracia, velha ou nova...



Conversa sobre política no Brasil é cheia de palavras de efeito, mas sem sentido lógico. Manipular é moleza. Para tomar um exemplo, a candidata Marina Silva no debate da rede Bandeirantes empregou o termo "elite" com uma conotação totalmente diferente do que diz o chavão popular, e isso virou contexto para descaracterizar o que foi dito. Hoje vi meu Facebook inundado com esse tema. E o povo, mesmo estudado, se cega só para botar sua opinião no rol das polêmicas eleitorais. Pois bem, Marina Silva, de forma bem clara, falou de "elite" como também sendo os intelectuais, revolucionários, artistas e gente bem sucedida. Os gregos antigos, povo que atribuímos a invenção da democracia, assim formava sua elite: A criança, depois de se ocupar das coisas de criança, iniciava, aos 12 anos, um outro grau de aprendizagem. Passava a receber os conhecimentos necessários para realizar sua contribuição à pólis. Mas não bastava apenas pertencer a uma classe de cidadãos, pois a verdadeira formação desse ser humano se elevava no momento em que, aos 18 anos, ele deveria, aos olhos de todos os demais cidadãos, realizar um discurso cujo propósito é falar de si mesmo, ou seja, dizer quem ele é e como poderia contribuir para o desenvolvimento de sua comunidade. Não era pouca coisa, não se tratava de escolher uma profissão e o vestibular, ou de ter dinheiro para pagar uma universidade. Se tratava de um profundo processo de autoconhecimento. Quem eu sou era a pergunta a ser respondida, e somente nesse sentido esse cidadão seria avaliado. Essa era a elite, a aristocracia grega que tinha a permissão de falar em público e administrar a pólis. 

Na nossa realidade, a opinião vale um voto, custe o que custar, entendendo ou não do que se fala. Nossa democracia é um show de marionetes, iludindo e se fazendo iludir, repetindo as mesmos discursos de sempre e reafirmando o medo sobretudo para que não tenhamos a coragem de falar de uma nova consciência, pois se você não está com um, está com o outro, se elogia gente rica, é contra o povo, se elogia o povo, é comunista, se fala em desenvolvimento econômico, é PSDB, se fala em inclusão social, é PT: Mas, se é PSDB, é egoísta, e se é do PT, é corrupto. 

Mas fato é que, para entender toda a complexidade do sistema político, é preciso muito estudo, é preciso muito se informar e é preciso se libertar dos discursos que manipulam seu voto e sua consciência. Não se trata mais de PSDB nem de PT. Para construirmos uma verdadeira democracia, precisamos de uma verdadeira elite. Uma elite de pensamento refinado, uma educação ética e uma atitude próspera. Se não educarmos nossos filhos para que descubram quem verdadeiramente são e como poderão contribuir para a sociedade, não teremos os políticos que gostaríamos e continuaremos assistindo, passivos, a cada dois anos, as mesmas fantasias eleitorais de sempre. 

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Diálogo com o oriente


Foi explorando ao acaso em uma pequena livraria da cidade onde moro que tive a grata surpresa de encontrar um pequeno livro que tem me trazido ensinamentos muito preciosos e reflexões que gostaria de desenvolver... O livro se chama “Muito Além do Divã Ocidental” (Cultrix, 2005) e é uma coletânea de palestras dadas a estudantes e profissionais de psicologia ministradas pelo mestre budista Chogyam Trungpa.

A proposta desse livro é de trazer um conhecimento diversificado do que estamos acostumados no meio acadêmico do ocidente. Não é um livro de doutrina religiosa, pois como o próprio autor salienta, é um erro pensar em budismo como uma religião institucionalizada com seus códigos específicos. O diálogo pelo qual o livro propõe é um diálogo de busca pelo conhecimento. E os métodos budistas podem nos fornecer algumas reflexões bastante pertinentes para o desenvolvimento da psicologia enquanto ciência. Como ainda estou estudando o livro, nesse momento gostaria de tocar superficialmente nos ensinamentos aqui contidos e ressaltar dois aspectos que me parecem fundamentais para repensarmos algumas abordagens, em psicologia e em educação.  

Chogyam Trungpa relata que quando chegou para estudar em uma universidade no ocidente, duas coisas lhe chamaram bastante à atenção:

- O conhecimento no ocidente é mais direcionado para a teoria e pouco para a prática.

“Quando vim para o Ocidente – para a Inglaterra, em 1963 -, fiquei muito surpreso ao constatar que a psicologia ocidental dá muito mais ênfase à teoria do que à experiência.”

De fato, em uma formação comum em psicologia, aprendemos durante cinco anos sobre algumas linhas de pensamento, lemos muito, conhecemos muitas histórias de vida dos autores célebres, aprendemos os métodos, refletimos sobre temas, mas pouco nessa formação temos para desenvolvermos a nós mesmos. Não existe quase nenhum método nem exigência para que durante a formação tenhamos que entrar em contato com nossa própria psique de forma a nos conhecermos melhor. Pessoalmente, vivenciei algumas aulas nesse sentido nos primeiros anos de formação. É pouco, e pela falta de ênfase, essas aulas acabam sendo banalizadas. Para o budista, segundo Trungpa, a teoria é importante, mas sempre em equilíbrio com o desenvolvimento de si através da meditação. A meditação é o método proposto pelo budismo, mas podemos aqui no ocidente pensar em muitas outras formas de vivências capazes de nos impulsionar ao autoconhecimento. Dinâmicas de grupo bem conduzidas, psicodramas, psicoterapias...

O que me parece claro a partir dessa observação do autor é que não existe maneira de se colocar na posição de alguém que recebe outro ser humano para guia-lo em um processo de cura ou de educação se essa pessoa não tiver algum grau de conhecimento de seu próprio ser. Qual o valor de conhecer os significados de id, ego, superego, ou self, persona, sombra, se esses rabiscos teóricos não forem percebidos e vivenciados em si mesmo como coisas vivas e pertinentes à existência? Já dizia Jung, lá por volta da década de 20, que o grande problema da educação é que os próprios educadores não se educam, não amadurecem.

Nesse ponto, também podemos refletir a respeito da educação de uma maneira mais ampla, pois o conhecimento transmitido nas escolas também tende a seguir a mesma lógica. Que elementos a escola oferece ao estudante para que ele compreenda a dinâmica de sua própria mente, para que trabalhe suas dificuldades olhando para dentro de si mesmo antes de encarar os processos dos métodos de aprendizagem? O que a escola oferece ao aluno agitado, que não consegue se controlar, para que ele compreenda as nuances e as causas de seu próprio comportamento? Para destrinchar essa questão, seguirei com um segundo comentário de Trungpa sobre suas impressões ao vivenciar o ocidente pela primeira vez:

- A culpa é um elemento central no desenvolvimento da psicologia e da educação no ocidente.

“(...)foi uma espécie de choque para mim quando descobri a tradição ocidental do pecado original. (...)parece que a noção de pecado original não apenas permeia as ideias religiosas ocidentais como, na verdade, parece estar presente em todo o pensamento ocidental, especialmente no psicológico.”

E como opera esse mecanismo? A culpa para nós é tão comum que poucas vezes olhamos para esse fenômeno da forma como ele realmente é. E a culpa acaba sendo o centro de muitos bloqueios e incômodos emocionais que encontramos em pessoas que procuram psicoterapia. É interessante a perspectiva de Trungpa, pois mostra como age inconscientemente o mito do pecado original como se fosse algo absolutamente natural, humano. Mas através desse olhar, percebemos que a culpa como concebemos é somente parte de uma construção cultural que acabou se perpetuando e causando seus danos, sem questionamento, sem uma percepção clara de seus efeitos. O exemplo que o autor dá sobre isso na educação é pertinente:

“Os professores, por exemplo, frequentemente pensam que, se as crianças não se sentirem culpadas, não vão estudar com propriedade e por isso não vão se desenvolver como deveriam. Com isso, muitos professores acreditam que precisam exercer alguma pressão sobre as crianças, e a culpa parece ser uma das principais técnicas adotadas.”

O mecanismo do aprendizado baseado na punição tornou-se, portanto, o foco para alimentar o desempenho.  E também para moldar o comportamento. Agimos enquanto educadores punindo e culpando a criança por seus erros. O sentimento de culpa então é o alimento que fará a criança se comportar como gostaríamos que se comportasse. Não podemos pensar aqui somente em termos de êxito. A criança, através da culpa, pode estudar mais, pode se comportar melhor. Mas quais as consequências de se desenvolver uma mente que “funciona” através dos mecanismos de culpa? Na visão de Trungpa a culpa é um bloqueio e os erros não devem ser tratados com tanta ênfase. O que deve se enaltecer são as capacidades, a “bondade” inerente a todo ser humano.

Então, se pararmos para refletir através dessa perspectiva, pouco a escola (ou todos nós como educadores) oferece no que diz respeito ao autoconhecimento. Os comportamentos desviantes ou a falta de produtividade geralmente são julgados através de mecanismos punitivos. Tornam-se estigmas: Você é culpado por seus erros. O que devemos perguntar, e considero isso fundamental para a formação de qualquer ser humano, é quais as consequências desse modo de educar e de desenvolver a vida?

O que o budismo propõe para o ocidente, segundo Trungpa, é uma perspectiva que visa sempre o desenvolvimento da sanidade. Estamos desenvolvendo seres humanos saudáveis, felizes, donos de si, emocionalmente equilibrados, ou estamos nos tornando mestres em neuroses, depressões, baixa estima e falta de domínio sobre à própria existência? Talvez um tanto de meditação para todos nós, educadores, terapeutas, como propõe Trungpa, possa nos fazer enxergar a vida a partir de outras perspectivas... E nos trazer novas ideias.


“De acordo com a perspectiva budista, os problemas existem, mas são impurezas temporárias e superficiais que encobrem nossa bondade fundamental (tathagatagarbha)”