quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Cibercultura e educação: proposta de reflexão


Para aqueles que são entusiastas da tecnologia, a civilização caminha para um progresso tecnológico capaz de resolver muitas das questões humanas, antigas e novas. Nas últimas décadas a tecnologia proporcionou para os seres humanos uma experiência tão intensa que muitas das transformações oriundas desse desenvolvimento nem mesmo foram assimiladas ou profundamente compreendidas. Obras de ficção científica permitiram voos da imaginação em futuros provavelmente possíveis, onde o homem procurou se imaginar diante de novas formas de se relacionar com o mundo através de seus próprios inventos. Muitas das imagens que esses autores visionários criaram se aproximam de nossa realidade atual, mas talvez a maior contribuição dessas obras não seja tanto os acertos em relação ao desenvolvimento tecnológico, mas sim a própria relação da natureza humana com um mundo completamente diferente de tudo que já foi experimentado em nossa história.

O entusiasmo é parte de um devir humano em busca de um ideal de existência. Faz parte enquanto processo do nosso próprio desenvolvimento. Lapidar o ser é da essência de cada um e a projeção dessa natureza é buscar na melhoria da sociedade um meio para a realização pessoal. No entanto, existe um espaço entre o ideal imaginativo e a observação consciente da realidade. No voo da imaginação, a criação abre portas para a criação, mas sem uma raiz de consciência do contato do próprio ser com o que se apresenta no mundo, corremos o risco de sermos inconscientemente tragados por forças capazes de alienar e limitar as potencialidades de vida.

Nossa realidade atual aponta para um avanço tecnológico que já permite níveis de conexão e de fluxo de informação cada vez mais acessíveis. Temos facilmente disponíveis na rede informações sobre qualquer tema possível. Conhecimentos que na antiguidade levavam anos para serem acessados, hoje em dia obtemos com uma rápida pesquisa no Google. São bibliotecas inteiras à disposição. O ideal aqui é de conquista. Disponibilizar para todos o acesso a informação é no mínimo democrático. Mas tomar consciência da realidade não significa apenas se ater aos discursos desse idealismo. A questão, que se desmembra ao aprofundarmos no tema é: “qual a consequência disto para o ser humano, enquanto ente individual, pensante, com seus desejos, com suas aspirações?”.

Muitos dos conhecimentos que são facilmente acessados são de temas tão complexos e profundos que precisavam de preparos de anos de muita dedicação e amadurecimento psíquico para serem completamente compreendidos. Foco e disciplina eram necessários. E isso tornava o estudo algo que transcendia ao simples tema estudado, pois era também parte de um preparo pessoal para a vida. Saber lidar com o tempo, saber doar, se sacrificar, obter o status de mestre daquele conhecimento e então criar, produzir novos pensamentos, novas obras.

Era assim, e de alguma forma, nunca deixou de ser. Para qualquer realização científica, profissional, pessoal, ter foco, disciplina e dedicação serão sempre quesitos fundamentais. Então o homem se vê diante de um universo de possibilidades, com fácil acesso ao mundo, com fácil acesso às pessoas, com fácil acesso ao conhecimento. Como o ser humano lida com todo esse fluxo, na velocidade que se apresenta, é uma questão que precisa ser observada já que diante desse quadro os modelos de aprendizagem também se modificam.

O conhecimento democratizado é interessante como possibilidade de transferência e acesso a todos. Isso poderia significar também uma maior flexibilização de oportunidades na atuação do indivíduo em seu meio social. Mas o processo de aprendizagem não é simples e não depende apenas do acesso às informações. O ser humano só se interessa e se dedica a um determinado conhecimento com total entrega quando há um sentido nele para sua própria existência. Para serem mais democráticas, as instituições promotoras de aquisição de conhecimento – as escolas, as universidades, etc. – precisam de um profundo conhecimento do meio social que envolve cada estudante. Entre tantas questões envolvidas na sociedade, o contato com as tecnologias e com o fluxo de informações tornou-se uma das influências mais significativas no processo de aprendizagem e de construção das relações humanas. Só o entusiasmo já não basta. Despertar para essas questões significa aumentar o nível de consciência, de clareza sobre como estar em contato e utilizar essas ferramentas de forma a suprir os desígnios da natureza humana.

No processo de aprendizagem, a tecnologia forneceu recursos bastantes interessantes capazes de facilitar e acelerar a aquisição do conhecimento. Porém, por outro lado, temos observado, principalmente nas escolas, os efeitos negativos em alguns aspectos básicos para a educação. Relacionarei três grandes problemáticas educacionais do nosso tempo ao universo da tecnologia, para aprofundarmos essa reflexão:

1. A falta de interesse

Não há apenas um caminho para concluirmos o motivo que leva os estudantes das escolas (pelo menos aqui no Brasil) a estarem cada vez mais desinteressados pelo conhecimento. Mas o que a experiência nos mostra é que cada uma das forças que fazem gerar essa questão estão interligadas, de alguma forma. A escola pode ser considerada incompetente em ensinar por não estar mais atualizada o suficiente com as demandas de uma transformação social cada vez mais acentuada do ponto de vista estrutural, cultural e de relações humanas. Porém, a dificuldade em ensinar, mesmo que configure incompetência, também se deve a sintomas sociais complexos que não propiciam nem favorecem o desenvolvimento da educação. A tecnologia acaba criando um desses sintomas. Primeiramente, quantidade de informações não necessariamente representa estímulos positivos para o estudo. O que também ocorre é que crianças e jovens se sobrecarregam com uma quantidade de informações nem sempre de boa qualidade. O conhecimento elementar propagado nas escolas hoje concorre com toda a carga de informações superficiais facilmente acessadas pelas internet e pela televisão. O tempo do aprendizado na escola difere muito do tempo do aprendizado nos meios de comunicação virtual. Falta de interesse também pode ser uma falta de sintonia entre a comunicação e o tempo da escola do que se apresenta no mundo.

2. A falta de concentração

O Brasil é hoje o segundo maior consumidor de Ritalina no mundo. Esse medicamento, utilizado para tratar o chamado Distúrbio de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é largamente recomendado por médicos psiquiatras para crianças e adolescentes com dificuldades de aprendizado. Não existe consenso na comunidade científica sobre as causas desse distúrbio nem mesmo conclusões claras sobre a possibilidade de ser um distúrbio de origem genética. (veja essa entrevista para maiores aprofundamentos: http://www.unicamp.br/unicamp/noticias/2013/08/05/ritalina-e-os-riscos-de-um-genocidio-do-futuro ) O que temos como concreto é que nos últimos 10 anos houve um aumento de mais de 1000% na produção do medicamento no mundo. É um fenômeno social considerável. O que a medicina não tem considerado, no entanto, são as possíveis causas psicossociais no aumento da dificuldade de concentração em crianças e adolescentes. Voltamos a questão centrada nesta  reflexão: A tecnologia permite inúmeros benefícios, mas quais as consequências de uma exagerada carga de informações de todos os tipos sendo a todo tempo veiculada no desenvolvimento de um ser humano? Será que a velocidade com que os jovens entram em contato com informações variadas altera a qualidade de percepção e de foco em momentos em que se exige concentração em determinado tema em prol do aprendizado? Conseguirá um adolescente que passa o dia no Facebook, se comunicando e recebendo informações supérfluas de forma frenética sentar por duas horas em silêncio para ler um livro? Isso pode ser possível, mas se pensarmos no coletivo, quantos são influenciados para simplesmente não terem uma mínima capacidade de se concentrar? Se esse número chegar a um décimo da população de estudantes, já teríamos uma questão considerável dentro das escolas. Mas você que é pai, que é educador, professor... Quantos são os jovens com questões semelhantes? Uma breve observação em sala de aula poderia aumentar esse número para, dependendo do contexto, quase que a totalidade dos estudantes.

3. A falta de curiosidade

Ter acesso à informação poderia representar uma fonte inesgotável de procura por conhecimento. E representa. Desde que estejamos direcionados para esse fim. A curiosidade é uma qualidade muito humana e impulsiona grande parte de nossas ações. Como fonte essencial de nossa natureza, a curiosidade precisa ser estimulada e ter um espaço próprio para se desenvolver. A criança saudável é sempre muito curiosa e por isso sua atenção é facilmente captada. Para desenvolver a curiosidade no sentido do aprendizado mais amplo, a atenção da criança necessita se voltar para coisas que propiciem a ela um espaço de formulação de complexidades cada vez mais abrangentes. Dos brinquedinhos de montar para questões existenciais, em cada fase a criança pode ser educada para apurar sua percepção, sua capacidade de observação e para seus desejos fundamentais e necessários de questionamento. O que ocorre nos nossos tempos, no entanto, é que o brincar da criança cada vez mais se limita a universos imaginativos já prontos. A tecnologia, no lugar de desenvolver brinquedos mais complexos e interessantes, limitou-os a replicar suas funções no que já foi criado. É o herói da televisão que já faz tudo ao toque de botões, jogos de videogames repetitivos e clichês, etc. Esse é um processo de alienação perigoso, pois capta todo o potencial da natureza curiosa do humano, direcionando-a em coisas limitadas e supérfluas, sem abertura para novas criações, novos questionamentos. Infelizmente, também podemos verificar essa questão nas escolas pela maneira pela qual o conhecimento é transmitido. Na infância, muito potencial é desperdiçado no que não é essencial. Agora, a falta mesmo de curiosidade é mais nítida após a infância. E aqui podemos relacionar o desenvolvimento infantil diante desses fatores com a alienação cultural ocasionada pela televisão e pela internet. A quantidade de informação acessada pelos jovens geralmente não possuem qualquer valor cultural, não estimulam qualquer aprendizado mais complexo. O resultado disso é uma queda na qualidade de expressão verbal e a quase completa falta de curiosidade para o conhecimento ou mesmo vivências de experiências diferenciadas em relação ao universo já manjado da internet (games, facebook), dentre tantas. Sem curiosidade não há vontade de conhecer, nem prazer em aprender.


Tomando consciência, então, poderemos iniciar reflexões mais profundas e termos uma ação mais clara diante daquilo que é desenvolvido. A tecnologia não é o problema em si. Precisamos nos ater ao fato de que o ser humano ainda não amadureceu o suficiente para lidar com as mudanças que o mundo apresenta. Por esse motivo, sofre consequências negativas desnecessárias. É um contrassenso quando possuímos uma ferramenta capaz de nos conectar com as mais diversas formas de manifestações culturais, mas a utilizamos como mecanismo de alienação. O reflexo está na crise da educação, na insatisfação, consciente e inconsciente, dos que sofrem pela limitação de suas potencialidades.

A escola não pode desconsiderar estas realidades e precisa desenvolver estratégias para trabalhar um aprendizado reflexivo sobre esses temas com seus estudantes. Na medida em que tomamos consciência, já existe um princípio de transformação. Se eu não aprendo, não me interesso, não consigo me concentrar, conhecendo ao menos o que me influencia nas minhas limitações, já tenho algum incômodo, já posso me mover.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Escola pavão ou escola passarinho?


Com o que a escola se ocupa? Desenvolver um ser humano tornou-se uma tarefa de obrigatoriedade social, um lema ideal de nossa civilização. Tornar gerações mais dóceis, éticas, produtivas, inteligentes? Os discursos fluem, tornam-se mais complexos, caminham de uma perspectiva para outra buscando a solução de todos os nossos problemas. Investir em educação é unanimidade. Diz-se que não há salvação para a pátria sem uma educação de qualidade. O próprio mundo assim exige. O desenvolvimento técnico é absolutamente necessário. Vivemos em volta de tecnologias cada vez mais complexas e abrangentes. Quem ficar para trás, sofrerá as consequências. É preciso ser alfabetizado, é preciso conhecer todas as disciplinas, dominar todas as fórmulas, desenvolver a frieza necessária para saber ser avaliado, nas provas, nos olhares, nos ditos, desditos. Se quiser ser bem sucedido, é bom ter condições, pois quem domina as técnicas, dominará o mundo.

A escola dá suas voltas no mesmo lugar desde o século XVII. É como um pavão com sua nobre vaidade. Ele tem sua razão de lá estar, mas não tem os olhos da águia que observa o mundo. Como as penas do pavão, os discursos sobre educação em nossa era se enfeitam de belezas e floreios, mas estão sempre diante do mesmo altar. De tantas voltas, perdeu o rumo, já não encontra soluções, seus ideais não se concretizaram e vivemos em um mundo perigoso, incerto e predominantemente infeliz.

Essa escola-pavão de nossos tempos se assentou no solo do idealismo. Seja qual for à causa pela qual serve, é instrumento e necessidade dos seus senhores. Se for para formar operários, formará, se for para formar uma elite burguesa, formará. O discurso idealista é sempre em prol de um desenvolvimento social, do progresso da nação. Se ela educa pobres, vai torná-los dóceis, bom trabalhadores, capazes de servir e de pouco reclamar, pois neles também serão incutidos os ideais da nação. Se educar os ricos, vai treiná-los nas mais avançadas técnicas, ensiná-los a pensar sozinhos, a liderar e serem extremamente competitivos. Crianças serão preparadas para as provas mais complexas e os adultos frequentarão as unidades de ensino superior.

Essa estrutura básica não se modificou até os nossos dias. E a sociedade tampouco parece atingir seu esplendor de glória. A escola repetiu e preparou gerações para adaptarem-se a uma estrutura social que só faz aumentar os índices de violência, estresse, neuroses, depressões. E as consequências das sombras dessa civilização também refletiram dentro dos muros das instituições de ensino. Crianças e jovens desinteressados, violentos, cada vez mais apáticos, acríticos, submissos a qualquer canal de alienação produzido pela cultura de massa. A escola começou a ruir e a solução temporária, mas não definitiva, saiu dos laboratórios: Ritalina. Como controlar as crianças tornou-se o debate fundamental para os que ainda acreditam na mesma fórmula. Palmatória não dá mais. Então o que fazer? Do que a escola se ocupa? E do que a escola se ocupará?

O pavão está se cansando de tantas voltas. Ficando velho. Não tem penas mais tão bonitas. Elas não satisfazem mais nem mesmo os olhos de uma sociedade que naturalmente se transforma para continuar coexistindo. O idealismo servil só obscureceu as maiores riquezas que o ser humano pode produzir e que fazem parte do seu desenvolvimento. A criança é uma explosão de possibilidades, diversidades, talentos, vontades. É criação em movimento, clama pelo céu, pelo voo dos pássaros. O idealismo, no entanto, já começa por fazer do ser humano um ente estigmatizado pelo nascimento, pela necessidade de servir de acordo com aquilo que seu meio social determinou. Dessa forma, a escola sempre se concentrou nos conteúdos, nas avaliações, na competição. As  potencialidades da existência foram ofuscadas pelos discursos que visavam apenas melhorias técnicas, comportamentais e de sucesso profissional.

O estigma é cruel com qualquer liberdade de busca. Temos gerações inteiras sendo reprimidas pela falta de competência. E o próprio conceito de competência se limitou ao ser perfeitamente adaptado. O sucesso profissional não garante o eixo básico da vida se este não estiver alinhado com os desígnios da existência. Alguém com profunda conexão em uma determinada área da vida não pode se sentir completo se desenvolver toda a sua atuação no mundo em qualquer outra coisa para suprir as necessidades de seu estigma. O autoconhecimento é fundamento básico do desenvolvimento. Voltar-se para a essência é uma necessidade do ser e uma urgência em nossos tempos se considerarmos o fato de que a violência pode significar uma manifestação genuína de almas inquietas, insatisfeitas pelo simples fato de não estarem de acordo consigo mesmas. Uma manifestação, no entanto, inconsciente, perigosa e de consequências que não podemos medir. 

A escola não pode mais ocupar-se em limitar o instinto nômade da humanidade. Somos buscadores de conhecimento enquanto fonte e espelho para nossa própria alma. Para o pavão virar passarinho e olhar novamente o horizonte, precisará trocar de penas, mudar seus discursos, deixar de servir seus antigos senhores, seus ideais de grandeza e progresso e passar a servir mais a existência enquanto potência de vida, dando valor a cada forma de ser com a reverencia que todos merecem. 

Neill, um grande educador que preferiu experimentar outros olhares sobre educação, escreveu que prefere “(...)formar um varredor de ruas feliz a um professor neurótico”. A diferença do que essa afirmação nos simboliza, em relação ao que já nos acostumamos, é o olhar do humano em sua livre manifestação, na busca do que está de acordo com seus desejos e capacidades. É um giro de perspectiva, um salto para o alto, pois não busca introduzir-lhe competências já definidas, mas deixar que o próprio ser tenha espaço para que possa olhar para dentro de si e descobrir sua própria essência... Quem eu sou? Do que me ocupo? Do que me ocuparei? 

O desafio, para nós, educadores, já tão condicionados pela educação que recebemos, é saber também dar esse giro em nossas perspectivas, olhar o mundo e a existência de outras formas... nos limparmos dos discursos que nos foram incutidos... e ousarmos experimentar.