Para aqueles que são entusiastas da tecnologia, a civilização caminha para um progresso tecnológico capaz de resolver muitas das questões humanas, antigas e novas. Nas últimas décadas a tecnologia proporcionou para os seres humanos uma experiência tão intensa que muitas das transformações oriundas desse desenvolvimento nem mesmo foram assimiladas ou profundamente compreendidas. Obras de ficção científica permitiram voos da imaginação em futuros provavelmente possíveis, onde o homem procurou se imaginar diante de novas formas de se relacionar com o mundo através de seus próprios inventos. Muitas das imagens que esses autores visionários criaram se aproximam de nossa realidade atual, mas talvez a maior contribuição dessas obras não seja tanto os acertos em relação ao desenvolvimento tecnológico, mas sim a própria relação da natureza humana com um mundo completamente diferente de tudo que já foi experimentado em nossa história.
Nossa realidade atual aponta para
um avanço tecnológico que já permite níveis de conexão e de fluxo de informação
cada vez mais acessíveis. Temos facilmente disponíveis na rede informações
sobre qualquer tema possível. Conhecimentos que na antiguidade levavam anos
para serem acessados, hoje em dia obtemos com uma rápida pesquisa no Google.
São bibliotecas inteiras à disposição. O ideal aqui é de conquista.
Disponibilizar para todos o acesso a informação é no mínimo democrático. Mas
tomar consciência da realidade não significa apenas se ater aos discursos desse
idealismo. A questão, que se desmembra ao aprofundarmos no tema é: “qual a
consequência disto para o ser humano, enquanto ente individual, pensante, com
seus desejos, com suas aspirações?”.
Muitos dos conhecimentos que são
facilmente acessados são de temas tão complexos e profundos que precisavam de
preparos de anos de muita dedicação e amadurecimento psíquico para serem
completamente compreendidos. Foco e disciplina eram necessários. E isso tornava
o estudo algo que transcendia ao simples tema estudado, pois era também parte
de um preparo pessoal para a vida. Saber lidar com o tempo, saber doar, se
sacrificar, obter o status de mestre daquele conhecimento e então criar,
produzir novos pensamentos, novas obras.
Era assim, e de alguma forma,
nunca deixou de ser. Para qualquer realização científica, profissional,
pessoal, ter foco, disciplina e dedicação serão sempre quesitos fundamentais.
Então o homem se vê diante de um universo de possibilidades, com fácil acesso
ao mundo, com fácil acesso às pessoas, com fácil acesso ao conhecimento. Como o
ser humano lida com todo esse fluxo, na velocidade que se apresenta, é uma
questão que precisa ser observada já que diante desse quadro os modelos de
aprendizagem também se modificam.
O conhecimento democratizado é
interessante como possibilidade de transferência e acesso a todos. Isso poderia
significar também uma maior flexibilização de oportunidades na atuação do
indivíduo em seu meio social. Mas o processo de aprendizagem não é simples e
não depende apenas do acesso às informações. O ser humano só se interessa e se
dedica a um determinado conhecimento com total entrega quando há um sentido
nele para sua própria existência. Para serem mais democráticas, as instituições
promotoras de aquisição de conhecimento – as escolas, as universidades, etc. –
precisam de um profundo conhecimento do meio social que envolve cada estudante.
Entre tantas questões envolvidas na sociedade, o contato com as tecnologias e
com o fluxo de informações tornou-se uma das influências mais significativas no
processo de aprendizagem e de construção das relações humanas. Só o entusiasmo
já não basta. Despertar para essas questões significa aumentar o nível de
consciência, de clareza sobre como estar em contato e utilizar essas
ferramentas de forma a suprir os desígnios da natureza humana.
No processo de aprendizagem, a
tecnologia forneceu recursos bastantes interessantes capazes de facilitar e
acelerar a aquisição do conhecimento. Porém, por outro lado, temos observado,
principalmente nas escolas, os efeitos negativos em alguns aspectos básicos
para a educação. Relacionarei três grandes problemáticas educacionais do nosso
tempo ao universo da tecnologia, para aprofundarmos essa reflexão:
1. A falta de interesse
Não há apenas um caminho para
concluirmos o motivo que leva os estudantes das escolas (pelo menos aqui no
Brasil) a estarem cada vez mais desinteressados pelo conhecimento. Mas o que a
experiência nos mostra é que cada uma das forças que fazem gerar essa questão
estão interligadas, de alguma forma. A escola pode ser considerada incompetente
em ensinar por não estar mais atualizada o suficiente com as demandas de uma
transformação social cada vez mais acentuada do ponto de vista estrutural,
cultural e de relações humanas. Porém, a dificuldade em ensinar, mesmo que
configure incompetência, também se deve a sintomas sociais complexos que não
propiciam nem favorecem o desenvolvimento da educação. A tecnologia acaba
criando um desses sintomas. Primeiramente, quantidade de informações não
necessariamente representa estímulos positivos para o estudo. O que também
ocorre é que crianças e jovens se sobrecarregam com uma quantidade de
informações nem sempre de boa qualidade. O conhecimento elementar propagado nas
escolas hoje concorre com toda a carga de informações superficiais facilmente
acessadas pelas internet e pela televisão. O tempo do aprendizado na escola
difere muito do tempo do aprendizado nos meios de comunicação virtual. Falta de
interesse também pode ser uma falta de sintonia entre a comunicação e o tempo
da escola do que se apresenta no mundo.
2. A falta de concentração
O Brasil é hoje o segundo maior
consumidor de Ritalina no mundo. Esse medicamento, utilizado para tratar o
chamado Distúrbio de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é largamente
recomendado por médicos psiquiatras para crianças e adolescentes com
dificuldades de aprendizado. Não existe consenso na comunidade científica sobre
as causas desse distúrbio nem mesmo conclusões claras sobre a possibilidade de
ser um distúrbio de origem genética. (veja essa entrevista para maiores
aprofundamentos: http://www.unicamp.br/unicamp/noticias/2013/08/05/ritalina-e-os-riscos-de-um-genocidio-do-futuro
) O que temos como concreto é que nos últimos 10 anos houve um aumento de mais
de 1000% na produção do medicamento no mundo. É um fenômeno social
considerável. O que a medicina não tem considerado, no entanto, são as
possíveis causas psicossociais no aumento da dificuldade de concentração em crianças e
adolescentes. Voltamos a questão centrada nesta
reflexão: A tecnologia permite inúmeros benefícios, mas quais as consequências
de uma exagerada carga de informações de todos os tipos sendo a todo tempo
veiculada no desenvolvimento de um ser humano? Será que a velocidade com que os
jovens entram em contato com informações variadas altera a qualidade de
percepção e de foco em momentos em que se exige concentração em determinado
tema em prol do aprendizado? Conseguirá um adolescente que passa o dia no Facebook,
se comunicando e recebendo informações supérfluas de forma frenética sentar por
duas horas em silêncio para ler um livro? Isso pode ser possível, mas se
pensarmos no coletivo, quantos são influenciados para simplesmente não terem
uma mínima capacidade de se concentrar? Se esse número chegar a um décimo da
população de estudantes, já teríamos uma questão considerável dentro das
escolas. Mas você que é pai, que é educador, professor... Quantos são os jovens
com questões semelhantes? Uma breve observação em sala de aula poderia aumentar
esse número para, dependendo do contexto, quase que a totalidade dos
estudantes.
3. A falta de curiosidade
Ter acesso à informação poderia
representar uma fonte inesgotável de procura por conhecimento. E representa. Desde
que estejamos direcionados para esse fim. A curiosidade é uma qualidade muito
humana e impulsiona grande parte de nossas ações. Como fonte essencial de nossa
natureza, a curiosidade precisa ser estimulada e ter um espaço próprio para se
desenvolver. A criança saudável é sempre muito curiosa e por isso sua atenção é
facilmente captada. Para desenvolver a curiosidade no sentido do aprendizado mais
amplo, a atenção da criança necessita se voltar para coisas que propiciem a ela
um espaço de formulação de complexidades cada vez mais abrangentes. Dos
brinquedinhos de montar para questões existenciais, em cada fase a criança pode
ser educada para apurar sua percepção, sua capacidade de observação e para seus
desejos fundamentais e necessários de questionamento. O que ocorre nos nossos
tempos, no entanto, é que o brincar da criança cada vez mais se limita a
universos imaginativos já prontos. A tecnologia, no lugar de desenvolver
brinquedos mais complexos e interessantes, limitou-os a replicar suas funções
no que já foi criado. É o herói da televisão que já faz tudo ao toque de
botões, jogos de videogames repetitivos e clichês, etc. Esse é um processo de
alienação perigoso, pois capta todo o potencial da natureza curiosa do humano, direcionando-a
em coisas limitadas e supérfluas, sem abertura para novas criações, novos
questionamentos. Infelizmente, também podemos verificar essa questão nas
escolas pela maneira pela qual o conhecimento é transmitido. Na infância, muito
potencial é desperdiçado no que não é essencial. Agora, a falta mesmo de
curiosidade é mais nítida após a infância. E aqui podemos relacionar o
desenvolvimento infantil diante desses fatores com a alienação cultural
ocasionada pela televisão e pela internet. A quantidade de informação acessada
pelos jovens geralmente não possuem qualquer valor cultural, não estimulam
qualquer aprendizado mais complexo. O resultado disso é uma queda na qualidade
de expressão verbal e a quase completa falta de curiosidade para o conhecimento
ou mesmo vivências de experiências diferenciadas em relação ao universo já manjado da
internet (games, facebook), dentre tantas. Sem curiosidade não há vontade de
conhecer, nem prazer em aprender.
Tomando consciência, então,
poderemos iniciar reflexões mais profundas e termos uma ação mais clara diante
daquilo que é desenvolvido. A tecnologia não é o problema em si. Precisamos nos
ater ao fato de que o ser humano ainda não amadureceu o suficiente para lidar com
as mudanças que o mundo apresenta. Por esse motivo, sofre consequências negativas
desnecessárias. É um contrassenso quando possuímos uma ferramenta capaz de nos
conectar com as mais diversas formas de manifestações culturais, mas a
utilizamos como mecanismo de alienação. O reflexo está na crise da educação, na
insatisfação, consciente e inconsciente, dos que sofrem pela limitação de suas
potencialidades.
A escola não pode desconsiderar estas realidades e precisa desenvolver estratégias para trabalhar um
aprendizado reflexivo sobre esses temas com seus estudantes. Na medida em que
tomamos consciência, já existe um princípio de transformação. Se eu não
aprendo, não me interesso, não consigo me concentrar, conhecendo ao menos o que
me influencia nas minhas limitações, já tenho algum incômodo, já posso me
mover.
