terça-feira, 7 de outubro de 2014

Intolerância


Resolvi arriscar propor uma fenomenologia da intolerância, pois tenho me debruçado em pesquisas sobre o tema na área de psicologia e não obtive êxito ainda no eixo de pensamento que gostaria de alcançar. A forma como esse tema tem sido tão intensamente abordado nesses tempos de eleições tem produzido um grande povoamento de ideias em nossa sociedade sobre diversos fenômenos que atravessam a questão da intolerância. E ao mesmo tempo, pululam os casos de violência, da verbal, moral, até a agressão, de fato.

Infelizmente, todo esse debate tem sido empobrecido pela tendência de se conduzir as soluções ao campo da lei ou do direito. Fato é que em uma sociedade tão grande e complexa como a nossa, a lei deve ser a salvaguarda dos direitos individuais de cada um – principalmente em um país que se pretende se desenvolver como democrático. Mas a lei por si só não educa nem faz compreender as causas que levam hordas de seres humanos a direcionarem toda a sua violência a apenas um supostamente por conta de um comportamento que não lhes agrada. Para isso, é preciso elevar um pouco mais o debate, e termos coragem o suficiente de reconhecer a origem dessas causas, mesmo que isso desagrade uns tantos.

Procurar a essência da intolerância exige um salto além dos discursos e das conceituações que percorrem o tema. Pois, quando pensamos em intolerância ou no intolerante, rapidamente nos relacionamos com as ideias correntes que enaltecem o aspecto moral envolvido nesses atos: a desumanidade, a ignorância, a falta de respeito, a discriminação. Ocorre que essas linhas de pensamento não têm sido muito eficientes quando o intento é de combater a própria intolerância. Pois, no que diz respeito ao intolerante, ele mesmo possuí suas próprias justificativas morais.

E o embate moral não se encerra. No campo verbal, todos querem fazer valer seu direito de expressão. E se embasam na lei para tanto. De alguma forma, todos querem ser e expressar o seu ser, seja ele como for. O religioso fervoroso quer seu direito de praticar a intolerância em nome do que considera ser a lei maior, a lei de deus, e a vítima quer o seu direito de ser o que exatamente é, da forma como nasceu ou da forma como escolheu percorrer a vida. E temos observado que essa fragmentação acaba por produzir e transpassar as violências presentes em cada um ao ponto de também tornar a vítima um condutor de outras intolerâncias. Alguns até defendem a violência como meio de produzir uma virada de paradigmas. Mas a história conta outros contos... A violência apenas se transforma, alternando os papeis dos opressores e dos oprimidos.

Também essa é a lógica de nosso sistema mental. Conteúdos reprimidos jamais se silenciam, apenas se transformam em outras manifestações, muitas vezes mais incômodas. Essa é a face particular da intolerância que criamos em relação a nós mesmos. Ao rejeitarmos alguns aspectos de nosso ser, os direcionamos para a inconsciência e por eles somos muitas vezes conduzidos. É por essa razão que a grande maioria das técnicas terapêuticas procura ampliar o grau de consciência do indivíduo. Possibilitar caminhos que o conduza à reflexão de si mesmo, para que integre à consciência o que necessita ser desenvolvido.

Proponho uma fenomenologia da intolerância, pois somente com um estudo profundo e metodológico do termo poderemos entender esse fenômeno enquanto manifestação psicológica do ser humano e não apenas através dos embates morais que se criam de acordo com suas consequências. A intolerância precisa ser analisada pelo que ela é: como um ato de oposição violenta ao outro, ao diferente. Não pode ser confundida com a crítica, não pode ser confundida com discordância de ideias. Ela precisa ser identificada em sua essência. No seu impulso de afronta, de repulsão, de repressão, de agressão. A intolerância precisa ser compreendida para não ser ocultada pelos discursos floreados ou pela justificativa dogmática. Precisamos, de forma muita clara, compreender a diferença entre se debater uma ideia - um caso, uma condição de vida - do ato de se propagar uma ideia pelo mesmo impulso intolerante que a originou. Nessas condições, se faz com mais clareza o processo de discernir a real intenção do ato intolerante.

Com mais discernimento, não existe argumento em prol da liberdade de expressão ou de dogmas religiosos que possam ocultar essas intenções. A intolerância estará lá, visível, para ser observada da forma como ela é. Do sujeito que mal sabe se expressar e que agride de fato ao político falastrão, a intolerância percorre seus rumos, multiplicando-se em seus discursos e suas vis consequências.

Não podemos nos esquivar ao fato de que a intolerância é parte da constituição do humano, pois ela existe e se faz presente nas relações humanas, mas também devemos considerar que existem nesse momento no planeta sociedades que atingiram níveis de desenvolvimento em que a intolerância se faz muito menos presente. E precisamos reconhecer, sobretudo, que esse país em que vivemos é consideravelmente intolerante. Que movimento então, já, neste momento presente, podemos realizar, para disparar um processo de transformação dessa cultura?


Gostaria de, no próximo texto, estender essa reflexão para a educação, que é alicerce pelo qual a intolerância se cria e também pela qual pode cessar.