Resolvi arriscar propor uma fenomenologia da intolerância, pois tenho me debruçado em pesquisas sobre o tema na área de psicologia e não obtive êxito ainda no eixo de pensamento que gostaria de alcançar. A forma como esse tema tem sido tão intensamente abordado nesses tempos de eleições tem produzido um grande povoamento de ideias em nossa sociedade sobre diversos fenômenos que atravessam a questão da intolerância. E ao mesmo tempo, pululam os casos de violência, da verbal, moral, até a agressão, de fato.
Infelizmente, todo esse
debate tem sido empobrecido pela tendência de se conduzir as soluções ao campo
da lei ou do direito. Fato é que em uma sociedade tão grande e complexa como a
nossa, a lei deve ser a salvaguarda dos direitos individuais de cada um –
principalmente em um país que se pretende se desenvolver como democrático. Mas
a lei por si só não educa nem faz compreender as causas que levam hordas de
seres humanos a direcionarem toda a sua violência a apenas um supostamente por
conta de um comportamento que não lhes agrada. Para isso, é preciso elevar um
pouco mais o debate, e termos coragem o suficiente de reconhecer a origem
dessas causas, mesmo que isso desagrade uns tantos.
Procurar a essência da
intolerância exige um salto além dos discursos e das conceituações que
percorrem o tema. Pois, quando pensamos em intolerância ou no intolerante,
rapidamente nos relacionamos com as ideias correntes que enaltecem o aspecto
moral envolvido nesses atos: a desumanidade, a ignorância, a falta de respeito,
a discriminação. Ocorre que essas linhas de pensamento não têm sido muito
eficientes quando o intento é de combater a própria intolerância. Pois, no que
diz respeito ao intolerante, ele mesmo possuí suas próprias justificativas
morais.
E o embate moral não se
encerra. No campo verbal, todos querem fazer valer seu direito de expressão. E
se embasam na lei para tanto. De alguma forma, todos querem ser e expressar o
seu ser, seja ele como for. O religioso fervoroso quer seu direito de praticar
a intolerância em nome do que considera ser a lei maior, a lei de deus, e a
vítima quer o seu direito de ser o que exatamente é, da forma como nasceu ou da
forma como escolheu percorrer a vida. E temos observado que essa fragmentação
acaba por produzir e transpassar as violências presentes em cada um ao ponto de
também tornar a vítima um condutor de outras intolerâncias. Alguns até defendem
a violência como meio de produzir uma virada de paradigmas. Mas a história
conta outros contos... A violência apenas se transforma, alternando os papeis
dos opressores e dos oprimidos.
Também essa é a lógica
de nosso sistema mental. Conteúdos reprimidos jamais se silenciam, apenas se
transformam em outras manifestações, muitas vezes mais incômodas. Essa é a face
particular da intolerância que criamos em relação a nós mesmos. Ao rejeitarmos
alguns aspectos de nosso ser, os direcionamos para a inconsciência e por eles
somos muitas vezes conduzidos. É por essa razão que a grande maioria das
técnicas terapêuticas procura ampliar o grau de consciência do indivíduo.
Possibilitar caminhos que o conduza à reflexão de si mesmo, para que integre à
consciência o que necessita ser desenvolvido.
Proponho uma
fenomenologia da intolerância, pois somente com um estudo profundo e
metodológico do termo poderemos entender esse fenômeno enquanto manifestação
psicológica do ser humano e não apenas através dos embates morais que se criam
de acordo com suas consequências. A intolerância precisa ser analisada pelo que
ela é: como um ato de oposição violenta ao outro, ao diferente. Não pode ser
confundida com a crítica, não pode ser confundida com discordância de ideias.
Ela precisa ser identificada em sua essência. No seu impulso de afronta, de
repulsão, de repressão, de agressão. A intolerância precisa ser compreendida
para não ser ocultada pelos discursos floreados ou pela justificativa
dogmática. Precisamos, de forma muita clara, compreender a diferença entre se
debater uma ideia - um caso, uma condição de vida - do ato de se propagar uma
ideia pelo mesmo impulso intolerante que a originou. Nessas condições, se faz
com mais clareza o processo de discernir a real intenção do ato intolerante.
Com mais discernimento,
não existe argumento em prol da liberdade de expressão ou de dogmas religiosos
que possam ocultar essas intenções. A intolerância estará lá, visível, para ser
observada da forma como ela é. Do sujeito que mal sabe se expressar e que
agride de fato ao político falastrão, a intolerância percorre seus rumos,
multiplicando-se em seus discursos e suas vis consequências.
Não podemos nos
esquivar ao fato de que a intolerância é parte da constituição do humano, pois
ela existe e se faz presente nas relações humanas, mas também devemos
considerar que existem nesse momento no planeta sociedades que atingiram níveis
de desenvolvimento em que a intolerância se faz muito menos presente. E
precisamos reconhecer, sobretudo, que esse país em que vivemos é
consideravelmente intolerante. Que movimento então, já, neste momento presente,
podemos realizar, para disparar um processo de transformação dessa cultura?
Gostaria de, no próximo
texto, estender essa reflexão para a educação, que é alicerce pelo qual a
intolerância se cria e também pela qual pode cessar.
