terça-feira, 20 de maio de 2014

Primeira reflexão sobre autoridade.


Dei uma repaginada no blog para tocar esse projeto adiante. Hoje temos essa ferramenta que facilita o compartilhar de nossos pensamentos e a expansão das possibilidades de diálogo. Comecei a realizar essa experiência devagarzinho, mas daqui pra frente pretendo divulgar com mais assiduidade reflexões sobre os temas propostos aqui.

A questão da autoridade já foi e é muito debatida, mas não se esgota em sua complexidade, pois se relaciona com praticamente todas as estruturas da nossa sociedade e está sempre em constante questionamento devido às mudanças nos sistemas institucionais e transformações dos conceitos que regem esse tipo de relação.

No trabalho clínico em psicoterapia questões relacionadas a autoridade aparecem, direta ou indiretamente, nas dúvidas e dificuldades do enfrentamento do ser e da formação de sua individualidade nas as relações as quais se submete diante do fato de todos nós existirmos em sociedade e em relação constante com o outro. Cada caso com suas especificidades, mas todos eles com a presença comum do enigma universal a ser desvelado no próprio desenvolvimento da vida: Quem eu sou e como minha vida e minhas relações me conduzem ao encontro comigo mesmo.

Quando existe o enfrentamento da autoridade, existe o devir próprio de expor a própria individualidade ou de afirmar a própria individualidade. Esse é um movimento ao mesmo tempo interno e externo. Existe a necessidade de uma afirmação de si no meio social, ao mesmo tempo em que essa afirmação de si expressa para a subjetividade uma necessidade de se conhecer. Como eu sou reflete o que eu sou? No desenvolvimento da vida, atingir o grau em que ambas as potências, a subjetiva e a objetiva, se harmonizam, exige um grande esforço e vontade pelo conhecimento, leva tempo e é quase que por via de regra um caminho onde muitos erros serão cometidos até que prevaleça uma atitude consciente madura a respeito das próprias atitudes. 

O enfrentamento da autoridade também ocorre consoante ao sentimento de opressão. É fato que em muitas relações onde existe a autoridade, existe a opressão. Mas, para aprofundarmos essa questão do ponto de vista da subjetividade, vale sempre perguntar: O que é que se está oprimindo? Do ponto de vista do indivíduo, é ele mesmo que está sendo oprimido. O chefe o oprime, o professor o oprime. Esse é um movimento comum de um ego que ainda não compreendeu que o sentimento nascente de determinada situação contém em si chaves importantes para o conhecimento de si mesmo. É fato que o chefe ou o professor - para exemplificar - podem utilizar seu poder para oprimir, mas o fato mais essencial é que diante de uma situação assim, o movimento emotivo do indivíduo oprimido indica necessidades muito íntimas, anseios que lhe são muito importantes e que dizem respeito a quem ele é. 

Sem esse entendimento, o sentimento de opressão apenas projeta no outro a causa de suas próprias angústias. A resiliência do oprimido, porém, não está em vencer o opressor. A resiliência aqui só ocorre quando, diante da situação, o indivíduo passa a conhecer o que de fato está sendo oprimido - quais aspectos do seu próprio ser que precisam ser desenvolvidos estão sendo tolhidos pela situação em que se encontra. 

Questionar a autoridade então é parte do desenvolvimento de qualquer ser. Já nos contam os mitos dos heróis que partem em busca de seus feitos sempre no ápice em que alguma autoridade precisa ser questionada antes do início da jornada. Esses contos estão presentes em todas as sociedades humanas e estão relacionados ao desenvolvimento psíquico e físico do ser humano. A criança, e mais explicitamente, o adolescente, questiona a autoridade como meio afirmador de si. A criança tem principalmente, mas não somente, a necessidade de impor a sua vontade diante das regras de seus pais e professores pelo simples fato de que passa a reconhecer em si essa capacidade, de ter vontade, de ser um indivíduo com vontades e de realizar suas vontades. Na adolescência, esse reconhecimento ganha contornos mais complexos e passa a estar relacionado à formação de sua personalidade que se diferencia das dos seus educadores.

As relações de autoridade se estabelecem em qualquer sociedade humana e não cabe realizar uma crítica no sentido de apenas questionar seus efeitos negativos ou suas imposições injustas. Refletir sobre a autoridade do ponto de vista da formação do ser humano é uma possibilidade de aprimorar essas relações como fonte educadora e criativa. As mudanças de alguns paradigmas em nossa sociedade e que envolvem também as relações de autoridade, têm produzido situações complexas que mais criam bases desfavoráveis ao desenvolvimento do ser humano do que o ajudam a evoluir. A crise global nos sistemas tradicionais de ensino nos demonstram exemplos claros de práticas pouco favoráveis à educação diante de uma sociedade e cultura em constante transformação. É muito comum encontrarmos tentativas de famílias que se propõe a produzir novas maneiras de educar os filhos, mas que acabam pecando pela inconsciência em relação ao desenvolvimento natural do ser humano. A autoridade é uma necessidade para a criança assim como é sua necessidade de questioná-la. É um parâmetro que a criança necessita ter, pois seu questionamento é em grande parte ainda superficial e imaturo. Isso também vale para a adolescência, fase ainda mais arriscada, pois muitas vezes um questionamento pode gerar problemas difíceis de serem superados. 

Afinar as relações de autoridade passa por tomar consciência de seus significados. A autoridade não pode ser o princípio da relação, pois corre-se o risco de cair em autoritarismo e o uso desproporcional de um poder que se perde exatamente em seu sentido e sua efetividade. A autoridade é apenas uma faceta que precisa ser compreendida enquanto parte de um processo de amadurecimento. A criança precisa entender que seus pais conhecem mais que ela e que por isso contém em si o direito de ser para ela essa autoridade. E os pais precisam estar cientes de que é parte do processo da criança questionar essa autoridade. Dessa forma, abre-se a possibilidade do diálogo e da expressividade que serão sempre princípios para uma disposição - de todas as partes envolvidas - ao conhecimento. 

Essa reflexão é um princípio de uma disposição em relação ao tema. Uma primeira perspectiva em torno do significado da autoridade pode valer a maneira de como se conduzir todo um processo que envolva essa relação. Compreender a dinâmica é um primeiro passo, mas não é suficiente diante da complexidade que cada situação exige. Mais para frente gostaria de trabalhar o tema em uma outra perspectiva: a aceitação da autoridade e as diferentes formas para que ocorra e de como conduzir a relação para uma aceitação construtiva e amadurecida.