Gostaria de tocar no tema do conceito de prosperidade, pois observo ser de relevância, em especial nos processos de terapia de criança e adolescentes, pois se têm mostrado frequente e gerado conflitos significativos, no que tange ao indivíduo, mas também nas relações familiares e nas instituições de ensino. Não irei discorrer especificamente sobre o conceito em si e suas múltiplas interpretações, mas apenas relacioná-lo com os aspectos negativos de suas distorções na infância e na adolescência.
Prosperar é bom, seja qual for o sentido em que se prospera. É esperado que cada ser busque prosperar nas áreas da vida que escolheu se desenvolver. Buscar excelência e ser recompensado por isso é uma forma de se autovalorizar. Nesse sentido, não importa se a prosperidade é financeira, ou se está no campo do reconhecimento, ou da produção artística, da caridade, da família ou outras áreas, o que interessa é o quanto o indivíduo sente que prosperou, sente que se satisfaz com suas ações e sente que o retorno dessas ações são justos.
Ocorre, no entanto que, em uma sociedade que valoriza o consumo e certos estilos específicos de vida, encontramos atravessado em todas as classes sociais noções distorcidas no que se refere ao conceito de prosperidade. E esse fato fica mais nítido quando observarmos esse fenômeno se manifestando em crianças e em adolescentes. Prosperar significa também aumentar o seu campo de poder, de influência, de mobilidade social. Mas transmitir uma imagem de alguém próspero por si só não garante esse poder. Em geral, essa ilusão dura pouco e tem como consequências conflitos internos e externos que desviam o ser de sua meta, de seus propósitos mais íntimos. Crianças e adolescentes tendem a serem mais influenciados e naturalmente seguem os exemplos de seu contexto familiar e social.
Quando a criança ou adolescente é de baixa renda familiar, observa-se uma tendência crescente de uma necessidade de afirmação através da chamada “ostentação”. A imagem de prosperidade se constrói nesses casos no uso de objetos de valor, como roupas, celulares, etc. Também a mídia trata de criar e acelerar essa onda com músicas que pregam quase que como doutrina vincular valor pessoal ao valor de consumo. Os problemas oriundos disso variam. Tenho tido contato com jovens que demonstram verdadeira tristeza e apatia quando não conseguem ter alguma roupa de marca ou um celular de ponta. Não obstante, ainda cobram seus familiares por conta dessas frustrações. Cobram, muitas vezes, ao ponto de se tornarem agressivos. Certa vez uma mãe, moradora de uma favela de São Paulo, me contou o quanto estava trabalhando para dar conta de comprar os tênis de marca que o filho de 12 anos queria. Eram tênis de valores altíssimos. E argumentava que se não comprasse o menino ficaria bravo e não iria querer ir pra escola, pois os colegas caçoavam de quem usasse tênis velhos. A vestimenta desse menino, comprada em um shopping próximo à favela e frequentado por famílias ricas, apenas cria uma imagem que oculta sua real condição de vida. E não estou me referindo ao fato dele viver em favela. Mas sim às condições que poderiam proporcionar a esse menino uma possibilidade de se preparar para ser aquilo que ele quiser ser, e verdadeiramente prosperar. Percebam que o investimento possível que a família faz para essa criança recaí no consumo e não na aquisição de conhecimento.
No caso de crianças e jovens que nascem já em famílias que prosperam financeiramente, os aspectos negativos que acabam emergindo por conta dessa condição geralmente partem dos próprios pais, que também acabam distorcendo o conceito de prosperidade nos exemplos que transmitem aos filhos. O consumismo exacerbado e sem significado acaba gerando um ciclo vicioso do querer confundido com o poder. A possibilidade de ter muitas coisas não significa a preexistência de um poder pessoal. Este só pode ser atingido através de um desenvolvimento interno que traga maturidade e autoconhecimento. E estes não são atributos que uma criança possuí. E é justamente por isso que ao serem exacerbadamente influenciadas pelo consumismo, acabam confundindo o poder interno que possuem, mas que precisa ser desenvolvido, com o êxito do ter, de comprar, de ostentar, de acumular.
Infelizmente, para uma criança ou adolescente, desviar o foco do seu real desenvolvimento para o consumo é devastador no que se refere à aquisição de valores éticos fundamentais para o bom convívio em sociedade. Crianças assim são birrentas, arrogantes e gostam de mostrar que se destacam somente por conta de sua condição financeira e das coisas que podem ter. E se não forem despertadas para esses fatos, tornam-se adultos com as mesmas características, acentuando-se o fato de que a birra e a arrogância do adulto causam danos muito mais sérios para a sociedade.
Esses são alguns fenômenos gerais que permeiam o tema. Existem outras complexidades que também podem ser observadas a partir dessas questões, mas em essência, podemos ver que a sociedade tem faltado na educação dos seus filhos nos exemplos que transmite sobre o que de fato significa prosperar. Dá-se muito valor ao momento e as coisas e não ao caminho do desenvolvimento. Uma mente que se ocupa somente em comprar, aparentar, em ter, não tem espaço para valorizar o conhecimento acadêmico e o conhecimento ético. E não tem espaço para vasculhar em seu íntimo qual a verdade do seu próprio ser, e quais caminhos tomar para que essa verdade se manifeste e prospere nos lugares onde tocar. Sem esse norte, estamos criando uma sociedade violenta, superficial, culturalmente e materialmente pobre. E não é somente o estado responsável por isso. Coletivamente, estamos aceitando passivamente as influências que empobrecem a alma das próximas gerações.
