Portal Unicamp – Quem está sendo medicado?
Maria Aparecida Affonso Moysés – São as crianças questionadoras (que não se submetem facilmente às regras) e aquelas que sonham, têm fantasias, utopias e que ‘viajam’. Com isso, o que está se abortando? São os questionamentos e as utopias. Só vivemos hoje num mundo diferente de 1.000 anos atrás porque muita gente questionou, sonhou e lutou por um mundo diferente e pelas utopias. Quando impedimos isso quimicamente, segundo a frase de um psiquiatra uruguaio, “a gente corre o risco de estar fazendo um genocídio do futuro”. Estamos dificultando, senão impedindo, a construção de futuros diferentes e mundos diferentes. E isso é terrível.
(fonte: http://www.unicamp.br/unicamp/noticias/2013/08/05/ritalina-e-os-riscos-de-um-genocidio-do-futuro)
Toda criança que desembarca nesse mundo necessita de educação. Essa óbvia e simples verdade universal talvez não precisasse ser repetida, não fosse os casos em que os responsáveis deixam de fazer o papel de educadores. É claro que um filho gera expectivas nos pais. Querem um filho saudável, bonito e de bom caráter, talentoso. Mas nenhum deles vem pronto. Pelo contrário, pois logo nos primeiros anos da infância a realidade que os pais precisam enfrentar são os aparecimentos das arestas, das questões que preocupam inclusive em relação a possibilidade do desmoronamento de algumas dessas expectativas.
A criança demora para andar, a criança demora para falar, a criança faz muitas birras... Então a criança é agitada demais, não obedece o que se pede, faz muita bagunça, morde os amiguinhos, não quer ir pra escola, não aprende na escola, nao respeita o professor, é agitada... Será que tem algum problema? Foi alguma coisa na gestação, algum remédio que eu tomei na gestação? Será que tem algum problema neurológico, será que ela nunca será inteligente, ordeira, capaz, talentosa, um profissional bem sucedido?
Logo cedo, a ansiedade dos pais revelam o tremendo paradoxo entre a expectativa, o sonho perfeito do filho perfeito, e os reais desafios de se educar um ser humano na primeira etapa de sua existência. A criança não é um anjo, embora tenhamos representado essas figuras mitológicas como espelhos das crianças, símbolo de pureza e perfeição. As dificuldades psicológicas das crianças são fatos humanos, demasiado humanos. Aparentemente, não são as mesmas dificuldades enfrentadas por adultos, mas psicologicamente, a raíz, o fundamento dessas questões, estão nas mesmas arestas que precisam ser trabalhadas durante toda uma existência.
Considerem que a criança não possuí a mesma experiência de um adulto. Ela ainda viu poucas coisas, passou por poucas coisas, por mais brandas ou intensas que possam ter sido. A expressividade de uma criança está de acordo com o seu repertório. A birra de uma criança pequena reflete sua comunicação desde de quando era um bebezinho de colo. A criança precisava chorar para ter seu alimento. Agora, ela já pede outras coisas, mas a birra... Bom, temos que ter em mente que o desejo é uma questão central no desenvolvimento do ser humano. O desejo é em sua gênese um instinto de sobrevivência. É a necessidade de alimento, de contato físico, de prazer. Pulsão de vida. Conforme a criança cresce, o desejo se torna mais complexo, pois não estará somente relacionado à sobrevivência material, pois o desenvolvimento da inteligência exigirá o contato com uma diversidade de possibilidades que a estimulem, que impulsione o desenvolvimento mental. A criança desejará brincar e desejará tudo aquilo que estimule o brincar. Ela pode pedir um brinquedo com a mesma intensidade que pede para mamar.
Mas, sabemos o quanto o desejo também pode representar grandes questões. O querer tudo é um impulso ainda descontrolado. Controle, domínio de si também fazem parte do processo de desenvolvimento da inteligência. Para o ser humano, dominar seus instintos é uma possibilidade de ter em mãos suas forças direcionadas para a criação. Também é uma vitória do desejo, pois ao não se deixar dominar por ele, passamos a direcioná-lo para o que corresponde ao nossos anseios mais íntimos e ao que nos diferencia e nos torna únicos. A questão do desejo é claramente uma questão a ser trabalhada durante toda a infância e adolescência. Mas será muito diferente no mundo adulto? Adulto não faz birra? Pessoalmente, diria que o adulto faz birras elaboradas. Ele não grita, não chora e bate o pé no chão. Ele argumenta e argumenta e argumenta. Com o olhar mais atento, é possível identificar no adulto resquícios de questões não bem trabalhadas que surgiram logo no primeira infância.
Para dar um exemplo generalista, digamos que a frustração é um elemento muito presente na infância. Quando a criança não consegue o que quer, ela se frustra. Vivenciar a frustração também é uma forma de conhecer esse sentimento, trabalhá-lo. Mas e se a criança não a vivencia? Se os pais a superprotegem desse suposto sentimento negativo? Existe a possibilidade do adulto ainda não saber lidar muito bem com a frustração? Voltemos então ao início dessa reflexão, sobre as expectativas dos pais sobre seus filhos. O que representa, de fato, uma expectativa? Não é um desejo, uma projeção do que se quer? E aos primeiros sinais da criança que ameaçam essas expectativas, de que forma o adulto lida com essa real possibilidade de se frustrar?
Pode ser que lide assim: Como as coisas não parecem sair como o imaginado, existe um problema a ser solucionado. Como a fixação está na projeção de um futuro, uma expectativa, então pouco se faz para uma análise dos fatos presentes. Abre-se mão do desafio que se apresenta e entrega-se tudo ao especialista. Não estou aqui criticando o fato de pais buscarem um especialista. Buscar ajuda é um sinal de maturidade. Mas é necessário uma relação dialógica nesses casos. Quando falo de entrega, falo de uma entrega incondicional e irreflexiva. A palavra do especialista torna-se a última. E a solução vêm em forma de pílula. O problema não está ao redor, não está nos pais, na escola, nas transformações que o mundo exige. O problema está na criança. O problema é a criança. A criança tem um transtorno, um erro no cérebro. Não tem nada de normal. E a solução é uma pílula.
Pais que abrem mão de educar agem assim por medo de se frustrarem ou pela incapacidade de aceitar outra situação que não àquela que imaginaram. Aceitam qualquer discurso que vier, pois não são mais os agentes da situação. Viram espectadores e submetem seus filhos a qualquer coisa que diminua suas angústias. Não se dão nem ao trabalho de pesquisarem a respeito do discurso que estigmatizou a criança como possuidora de um transtorno orgânico. Não sabem que esse transtorno que dizem ser orgânico nem mesmo possuí comprovação científica. Desconhecem os efeitos colaterais do metilfenidato (ritalina) ou as dificuldades psicológicas provenientes de uma estigmatização logo na infância para o desenvolvimento de toda uma existência.
A ingenuidade também caracteriza a infância. Mas parece irromper até a fase adulta. A grande diferença é que o adulto tem o poder e os instrumentos para causar estragos reais, irreparáveis. e para lidar com a ingenuidade e com os erros provenientes dela, o adulto precisa novamente enfrentar o medo de se frustrar, pois precisará reconhecer suas faltas e ter a atitude de tomar pra si novamente o papel de protagonista na educação de seus filhos. Ou seja, para educar nossas crianças, precisamos primeiro educar todas as arestas que ficaram por lapidar em nossa infância. Precisamos amadurecer, sermos mais inteligentes, ativos e criativos.