quarta-feira, 18 de junho de 2014

Um pouco mais sobre tecnologia e educação...


As questões que envolvem o uso de tecnologias por crianças e adolescentes são cada vez mais frequentes, nas escolas, nos consultórios... Tenho lido e ouvido diversas opiniões sobre o assunto, e acredito que este seja mesmo um tema urgente e necessário. Uma boa parcela das famílias que permitem o acesso de seus filhos aos diversos meios ligados à tecnologia têm relatado dificuldades diretamente relacionadas a estes usos e outras que parecem estar relacionadas ao contato com a tecnologia. 

Uma das principais queixas dos pais é sobre o uso excessivo desses meios, que hoje não está tão focado na televisão, mas sim no computador. Só esse recorte a respeito do tema já apresenta inúmeras complexidades. Por ora, vamos partir essa reflexão desse ponto. Primeiramente, sobre o uso excessivo do computador, a primeira relação que se faz é com o vício. Daqui parte uma questão: O que podemos considerar como vício, ou qual o parâmetro para estabelecermos que uma criança ou adolescente apresenta um comportamento vicioso no uso do computador? Devemos definir um número de horas considerado adequado, ou nos atentarmos a respeito do quanto o computador “toma” de tempo para outros tipos de atividades? Vejo que essa situação exige muito mais aprofundamento. O computador é um mecanismo que produz muitos estímulos e seria muito superficial definirmos esse comportamento apenas como “uso do computador”. Afinal, o que é que está sendo produzido através desse uso? Quais estímulos estão envolvidos a partir desse uso? Se os pais não se envolverem diretamente no que se passa ali naquele “mundo virtual”, o diálogo com seus filhos ficará cada vez mais distante e alienado. 

Uma criança ou um adolescente pode passar muitas horas na frente de um computador, realizando diversos tipos de tarefas, se comunicando, jogando, criando, aprendendo, ouvindo música. São diversos estímulos, portanto, o que torna muito difícil definir até que ponto podemos chamar de vício essa relação com a tecnologia. Essa é uma questão importante, pois se tratarmos um sintoma sem compreender seus fundamentos, nos afastamos da experiência real e perdemos o foco no que realmente importa: O que é que se produz através do uso constante da tecnologia? Essa pergunta refere-se à qualidade do uso, do que se faz em um computador e de como isso auxilia ou dificulta no desenvolvimento da criança ou do adolescente. 

Focando na experiência real, facilitamos a compreensão dos motivos que levam o usuário a ficar tantas horas na frente de um computador. A possibilidade de existir uma relação viciosa não está apenas no uso do computador, mas sim nos estímulos que o envolvem. Não se trata apenas de diminuir o uso do computador, mas sim de oferecer novas possibilidades de interação com o ambiente, ou mesmo com a própria máquina. O vício pode estar presente no uso, mas é necessário estarmos atentos no conteúdo para compreendermos melhor a natureza desse vício. Qual estímulo produz a relação viciosa? Com um pouco de análise da situação, podemos compreender, por exemplo, a relação do estímulo com outras situações vivenciadas pelo usuário. E essa análise é fundamental para compreendermos a globalidade e a extensão da questão no desenvolvimento da criança e do adolescente. 

Existem também as questões que envolvem a relação que se faz entre o uso de tecnologia por crianças e adolescentes e possíveis consequencias negativas no desenvolvimento. Esse tema é complexo, pois exige uma análise completa de todas as relações que envolvem a criança e o adolescente. O que exige um grau de aceitação é o fato de que a tecnologia é hoje uma realidade cada vez mais presente nos lares, e por sua mobilidade e inventividade, está sempre modificando o modo como a utilizamos e prendendo nossa atenção nos seus sempre novos recursos. Algumas correntes defendem que crianças até certa idade (isso varia de 7, 9 ou 12 anos) não devem ter contato algum com tecnologias para favorecer o desenvolvimento da criatividade. Nessas correntes destacam-se os educadores de linha Waldorf. É claro que a argumentação aqui parte sempre dos aspectos negativos que a tecnologia gera nas crianças. Porém, devemos levar em conta que a tecnologia também produz recursos interessantes de aprendizagem e também podem ser meios de estimulação para a criatividade. 

Minha opinião pessoal é de que estamos, sobretudo, ainda aprendendo a lidar da melhor forma com a tecnologia, e que crianças e adolescentes fazem parte desse processo inclusive para refletirmos a respeito de visões e percepções do tipo de mundo que queremos construir. As famílias e a escola não devem se omitir desse debate. A tecnologia faz parte do mundo e poderá ser inclusive um meio fundamental para a solução dos maiores problemas que a civilização humana enfrenta hoje em termos estruturais, a começar pelas questões ecológicas. 

Educar para os saberes proporcionados pela tecnologia, incluído o seu uso saudável, é desenvolver crianças e adolescentes capazes de fazer desses mecanismos meios criativos de transformação da realidade em prol da humanidade. As questões trabalhadas no início dessa reflexão é um recorte e exemplo de como a psicologia e os educadores, nos lares e nas escolas, podem trabalhar para tornar esse momento de intensa produção tecnológica uma oportunidade de aprendizagem para a existência e de produção de um futuro melhor. 

Hoje já temos projetos muito interessantes de como utilizar a internet pela educação. Para ampliar a reflexão, deixo abaixo o link da Khan Academy em português (gostaria de falar mais sobre esse projeto em outro momento):

http://www.fundacaolemann.org.br/khanportugues/