quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Por que a escola não muda?




Ouvi a seguinte pergunta em uma palestra ministrada por uma pedagoga: “Porque a escola não muda?”. Observando o discurso da palestrante, e os comentários da plateia, formada em sua maioria por outros pedagogos, formulei minha própria inquietação: “Porque os educadores não mudam?”.

A sociedade exige que escola seja eficiente. Essa é uma necessidade do modelo vigente. E essa eficiência, pela lógica desse próprio sistema, significa aquisição de conhecimentos. Alfabetizar corretamente, interpretar textos corretamente, saber calcular e daí por diante aprofundar todos os outros saberes das áreas já determinadas pelas cartilhas escolares.

Esse é um paradigma? Podemos realmente pensar que esse modelo educacional não é o suficiente, mas ainda sim ele deve suprir as necessidades de uma sociedade capitalista, tecnocrata, cada vez mais necessitada de pessoas qualificadas. O sistema educacional não vai tomar outros rumos apenas por conta de ideais ou por teorias desenvolvidas em outros tempos.  Ele vai continuar exigindo eficiência, que as crianças aprendam no tempo determinado e que sejam capazes de se qualificar no futuro.

Então escuto a respeito de tentativas de se criar outros modelos de ensino, mas que acabam sempre sendo comparados com modelos tradicionais bem aplicados, e sempre no sentido de demonstrar que em termos de eficiência ainda é mais interessante o sistema de avaliação por notas, de pressão pela punição e de disciplinas de conhecimento bem definidas.

Eis a armadilha: o discurso vence pelos números, e o estado tende a conservar o que é mais fácil de ser avaliado. O contrassenso aqui são os outros fatores que precisam ser observados. O ensino tradicional não atende mais as expectativas das crianças de nossos tempos (nem entrarei no mérito se de fato algum dia esses modelos atenderam algum tipo de expectativa). E a pressão pelos resultados espirra as mais bizarras consequências... Vejamos:

Parece que vivemos uma epidemia da falta de atenção. A medicina moderna encaixotou esse fenômeno em um suposto transtorno psiquiátrico, o já famoso TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção). Por definição, nessa linha, a criança desatenta sofre de uma patologia, de origem orgânica. O problema é ela mesma. E existe um medicamento para tratar a questão, o metilfenidato, ou Ritalina. Esse medicamento passou a ser largamente consumido por crianças e adolescentes em pouquíssimos anos. Podemos dizer hoje que uma parcela significativa das próximas gerações já está sendo estigmatizada por esta patologia. E a escola? Ela não mudou, continua a mesma.

O problema é que o metilfenidato é um medicamento de efeitos colaterais bastante agressivos. E o pior deles não é nem de origem orgânica, mas sim uma questão da mente. Uma patologia psiquiátrica não é como uma patologia comum. Uma infecção você cura com um antibiótico, e pronto. Mas, uma questão mental... Não é só uma disfunção do cérebro (que por sinal, nunca foi cientificamente comprovada no caso do TDAH). Percebam que quando alguém diz que você tem um “probleminha” da ordem da psique, está se referindo a sua existência, seu modo de ser. Portanto, esse é um estigma bastante significativo. O que você é, veja bem, não está certo. Você toma esse remedinho aqui, que você vai ser diferente (mais atento, mais comportado).

É alarmante esse fato, e as consequências já podem ser medidas, quantificadas. Muitos dos que utilizaram Ritalina na infância tornaram-se usuários de outros “inas” na fase adulta. Cafeína, taurina... cocaína. O que não pode ser quantificado só pode ser percebido pelos profissionais que trabalham com essas crianças. As perdas das características que lhe são próprias, inclusive da capacidade criativa, é algo bastante triste de se ver e de engolir.

Mas porque as crianças estão desatentas? Esse é um fato a ser pensado. E precisa ser feito de forma bastante aprofundada, pois o que tenho ouvido por aí são discursos que se fixam em demasia em ideais políticos e sociais e que pouco observam a realidade ao redor. É verdade que cada criança é um ser, com uma personalidade singular, com capacidades que lhe são próprias e com vivências muito particulares. Mas relativizar demais o desenvolvimento de uma criança, de um ser humano, não ajuda nem a escola nem mesmo a própria criança. Não dar importância aos fatores universais que constituem a espécie humana é desconsiderar observações científicas pertinentes que muito contribuem para o entendimento de cada processo de desenvolvimento, incluindo seus obstáculos.

A criança desatenta ou rebelde não deve ser estigmatizada como anormal, assim como também não deve ser estigmatizada diante de seus desafios, normatizando também suas incapacidades momentâneas. Relaxar demais no tempo da criança aprender acaba se tornando uma medida que tende a tornar muito superficial a reflexão que a escola deve realizar a respeito de seus próprios métodos. De um extremo ao outro, ou a escola entrega a criança ao psiquiatra, ou simplesmente não cria os mecanismos adequados para que a criança enfrente seus desafios, de acordo com o momento adequado ao seu grau de desenvolvimento.

Novos métodos de ensino não podem vigorar sem considerar as exigências de seu meio social. Eles precisam demonstrar seu grau de excelência, apontando as falhas do antigo sistema. A realidade educacional em nosso país (e na maior parte do mundo) precisa atentar para as consequências diretas de seus métodos educacionais:  a falência moral, o aumento das intolerâncias, o desgosto pelo conhecimento, a falta de atualização em relação à informação e tecnologias modernas, a padronização extrema dos meios de transmissão do conhecimento que acaba por excluir os alunos que possuem características que não se adequam aos métodos, dentre outras questões que precisam ser profundamente consideradas para que a escola prepare as novas gerações no sentido de edificar um mundo mais ético e sustentável.

Enquanto a escola não muda, os alunos estarão cada vez mais desatentos. Na era da informação e do conhecimento em massa, a escola e seus métodos arcaicos serão cada vez mais desinteressantes. O problema não está nas crianças. É preciso reformular a escola para que acompanhe as transformações de nossa sociedade. E para tanto o conhecimento da criança e suas etapas de desenvolvimento precisam ser considerados. Com essa sabedoria, poderemos demonstrar que a criança desatenta precisa de novas práticas para que possam aprender a lidar com a própria mente. É na busca da excelência no processo de educar que a Ritalina perderá seu conceito, sua importância.

Uma nova escola para que perdure e seja aceita pela sociedade deverá ser uma escola que amplie ainda mais a capacidade dos seus alunos de adquirir conhecimento e, principalmente, ter gosto pelo conhecimento. A grande questão que os educadores precisam focalizar no momento é de como resgatar nas crianças de hoje a vontade absoluta pelo conhecer, a curiosidade que lhes é tão natural. Ensinar as matérias fundamentais não pode mais ser algo distinto dos sentidos das existências particulares de cada um. O conhecimento precisa estar atrelado ao desenvolvimento pessoal de uma maneira que faça sentido e que seja absolutamente livre de pressões punitivas. Uma nova ética se faz necessária através dos exemplos que a própria escola deve cultivar. A busca pelo conhecimento precisa ser demonstrada pela força da própria natureza, através do saber a respeito do desenvolvimento da criança.


Reconhecer que os modelos educacionais vigentes, estes mesmos que são adotados desde o final do século XVII, são causas diretas das manifestações negativas no aprendizado das crianças é um primeiro passo na formulação das questões essenciais que precisam ser debatidas para que a escola se transforme, de fato. E essa nova escola deve ser plenamente capaz de demonstrar que o grau de aprendizado pode se elevar através de práticas mais inteligentes. Está na mão dos educadores a disposição para transformar.


Para finalizar essa reflexão, deixo abaixo link de um artigo sobre os efeitos da meditação nos processos psicossomáticos e cognitivos. Essa prática é apenas uma das ideias possíveis de se utilizar para o desenvolvimento de crianças e jovens que necessitam aprender a lidar com a própria potência de viver:

http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1414-98932009000200006&script=sci_arttext


quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Intolerância (II): a repressão do feminino


(Continuação das reflexões sobre intolerâncias)

Esse fragmento de um texto da antiguidade que apresento abaixo mostra um entendimento universalista do arquétipo da Grande Mãe, divindade reverenciada desde os primórdios da civilização (pra lá de 7.000 anos antes de cristo). Desde aqueles tempos, o culto à Deusa e ao feminino foi sendo suprimido pela consciência patriarcal, desenvolvendo os modos de pensamento e de convivência que a sociedade ocidental sustenta até os nossos tempos. O feminino arquetípico, hoje representado como símbolo na Virgem Maria, perdeu muitas de suas facetas, podendo-se mostrar apenas com o que interessa ao patriarcado: a subserviência, a devoção, a misericórdia, a pureza, a virgindade...

Pois que essas faces também são faces desse arquétipo, mas como na natureza, onde tudo é movimento contínuo, a Deusa também se transmuta na roda da existência, sendo a rainha da vida e da morte, da luz e da sombra, ela trás em sua força todas as potências e devires naturais de cada um dos filhos da Terra. Ao renegar esse arquétipo, o ser humano passou a priorizar o desenvolvimento da consciência e da razão, deixando na escuridão todos os tormentos de sua alma. Deixou de olhar para dentro de si para acreditar no dogma da fé imposta e institucionalizada. Passou a chamar de demônio e de mal seus impulsos primais, como se pudesse simplesmente descola-los do próprio corpo.

A pressão que se faz para reprimir de dentro o que nos ensinam a rejeitar se vê projetada nas relações de poder, nos corpos enrijecidos, nas ideias inflexíveis, nos medos, nos muitos medos, nos tantos medos que os vemos na arquitetura das cidades, nos olhares desconfiados, na forma como educamos as crianças... E essa sociedade patriarcal, sem sua mãe, nem sabe mais o que é ser humano - fica se questionando: “mas isso é humano?”.

Se hoje o universalismo é um movimento importante na transformação de muitos dos paradigmas da sociedade ocidental, vejamos, através desse texto, que esse não é um conceito novo, mas algo que precisa ser resgatado através de existências que também acolham seus opostos, que permitam que a vida se desenvolva em sua integridade, na aceitação de prazer e dor, luz e sombra, vida e morte. Reconectar-se com sua própria natureza, e à natureza que o circunda, é o desafio que o homem deve se propor nesse momento de crise. O ser humano que busca equilibrar suas forças psíquicas, aceitando os fatos naturais da existência, torna-se mais capaz de aceitar a própria diversidade da vida. E estará mais receptivo ao outro, mesmo através de suas diferenças. Perceber que as intolerâncias são fatos consequentes do tipo de cultura que se desenvolve no ocidente é um primeiro passo para buscarmos uma revolução em nosso pensar que permita convivermos com mais harmonia.

“Sou aquela que é a mãe natural de todas as coisas, senhora e soberana de todos os elementos, a progênie original dos mundos, principal dos poderes divinos, rainha de todos os que estão no inferno, comandante daqueles que habitam o céu, manifestada unicamente sob a forma de todos os deuses e deusas. À minha vontade disponho os planetas do céu, os saudáveis ventos marítimos e os silêncios deploráveis do inferno; meu nome, minha divindade é adorada por todo o mundo, de diversas maneiras, em costumes variados e por muitos nomes.

Pois os frígios que são os primeiros de todos os homens chamam-me Mãe dos deuses do Pessinus; os atenienses, autóctones, de Minerva Cecrópia; os cipriotas, cingidos pelo mar, de Vênus Pafiana; os cretenses sagitíferos, de Diana Dictina; os sicilianos, que falam três línguas, de Prosérpina Estígia; os nativos de Elêusis, de Ceres Acteana; para alguns Juno, para outros Belona e outros Hécate, para outros ainda Ramnúsia. Já ambos os tipos de etíopes que habitam o Oriente e são iluminados pelos raios do sol da manhã e os egípcios, excelentes em todas as espécies de doutrinas antigas e acostumados a adorar-me em suas próprias cerimônias, chamam-me pelo meu verdadeiro nome, Rainha Ísis.”


Palavras da Deusa Ísis dirigidas a seu iniciado Apuleio (150 D.C.), em citação retirada de “As Máscaras de Deus – Mitologia Ocidental”, de Joseph Campbell