Ouvi a seguinte pergunta em uma
palestra ministrada por uma pedagoga: “Porque a escola não muda?”. Observando o
discurso da palestrante, e os comentários da plateia, formada em sua maioria
por outros pedagogos, formulei minha própria inquietação: “Porque os educadores
não mudam?”.
A sociedade exige que escola seja
eficiente. Essa é uma necessidade do modelo vigente. E essa eficiência, pela
lógica desse próprio sistema, significa aquisição de conhecimentos. Alfabetizar
corretamente, interpretar textos corretamente, saber calcular e daí por diante
aprofundar todos os outros saberes das áreas já determinadas pelas cartilhas
escolares.
Esse é um paradigma? Podemos
realmente pensar que esse modelo educacional não é o suficiente, mas ainda sim
ele deve suprir as necessidades de uma sociedade capitalista, tecnocrata, cada
vez mais necessitada de pessoas qualificadas. O sistema educacional não vai
tomar outros rumos apenas por conta de ideais ou por teorias desenvolvidas em
outros tempos. Ele vai continuar exigindo eficiência, que as crianças
aprendam no tempo determinado e que sejam capazes de se qualificar no futuro.
Então escuto a respeito de tentativas
de se criar outros modelos de ensino, mas que acabam sempre sendo comparados
com modelos tradicionais bem aplicados, e sempre no sentido de demonstrar que
em termos de eficiência ainda é mais interessante o sistema de avaliação por
notas, de pressão pela punição e de disciplinas de conhecimento bem definidas.
Eis a armadilha: o discurso vence
pelos números, e o estado tende a conservar o que é mais fácil de ser avaliado.
O contrassenso aqui são os outros fatores que precisam ser observados. O ensino
tradicional não atende mais as expectativas das crianças de nossos tempos (nem
entrarei no mérito se de fato algum dia esses modelos atenderam algum tipo de
expectativa). E a pressão pelos resultados espirra as mais bizarras
consequências... Vejamos:
Parece que vivemos uma epidemia da
falta de atenção. A medicina moderna encaixotou esse fenômeno em um suposto
transtorno psiquiátrico, o já famoso TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção).
Por definição, nessa linha, a criança desatenta sofre de uma patologia, de origem orgânica.
O problema é ela mesma. E existe um medicamento para tratar a questão, o
metilfenidato, ou Ritalina. Esse medicamento passou a ser largamente consumido
por crianças e adolescentes em pouquíssimos anos. Podemos dizer hoje que uma
parcela significativa das próximas gerações já está sendo estigmatizada por
esta patologia. E a escola? Ela não mudou, continua a mesma.
O problema é que o metilfenidato é um
medicamento de efeitos colaterais bastante agressivos. E o pior deles não é nem
de origem orgânica, mas sim uma questão da mente. Uma patologia psiquiátrica
não é como uma patologia comum. Uma infecção você cura com um antibiótico, e pronto.
Mas, uma questão mental... Não é só uma disfunção do cérebro (que por sinal,
nunca foi cientificamente comprovada no caso do TDAH). Percebam que quando
alguém diz que você tem um “probleminha” da ordem da psique, está se referindo
a sua existência, seu modo de ser. Portanto, esse é um estigma bastante
significativo. O que você é, veja bem, não está certo. Você toma esse remedinho
aqui, que você vai ser diferente (mais atento, mais comportado).
É alarmante esse fato, e as
consequências já podem ser medidas, quantificadas. Muitos dos que utilizaram
Ritalina na infância tornaram-se usuários de outros “inas” na fase adulta.
Cafeína, taurina... cocaína. O que não pode ser quantificado só pode ser
percebido pelos profissionais que trabalham com essas crianças. As perdas das
características que lhe são próprias, inclusive da capacidade criativa, é algo
bastante triste de se ver e de engolir.
Mas porque as crianças estão
desatentas? Esse é um fato a ser pensado. E precisa ser feito de forma bastante
aprofundada, pois o que tenho ouvido por aí são discursos que se fixam em
demasia em ideais políticos e sociais e que pouco observam a realidade ao
redor. É verdade que cada criança é um ser, com uma personalidade singular, com
capacidades que lhe são próprias e com vivências muito particulares. Mas
relativizar demais o desenvolvimento de uma criança, de um ser humano, não
ajuda nem a escola nem mesmo a própria criança. Não dar importância aos fatores
universais que constituem a espécie humana é desconsiderar observações
científicas pertinentes que muito contribuem para o entendimento de cada
processo de desenvolvimento, incluindo seus obstáculos.
A criança desatenta ou rebelde não
deve ser estigmatizada como anormal, assim como também não deve ser
estigmatizada diante de seus desafios, normatizando também suas incapacidades
momentâneas. Relaxar demais no tempo da criança aprender acaba se tornando uma
medida que tende a tornar muito superficial a reflexão que a escola deve
realizar a respeito de seus próprios métodos. De um extremo ao outro, ou a
escola entrega a criança ao psiquiatra, ou simplesmente não cria os mecanismos
adequados para que a criança enfrente seus desafios, de acordo com o momento
adequado ao seu grau de desenvolvimento.
Novos métodos de ensino não podem
vigorar sem considerar as exigências de seu meio social. Eles precisam
demonstrar seu grau de excelência, apontando as falhas do antigo sistema. A
realidade educacional em nosso país (e na maior parte do mundo) precisa atentar
para as consequências diretas de seus métodos educacionais: a falência
moral, o aumento das intolerâncias, o desgosto pelo conhecimento, a falta de
atualização em relação à informação e tecnologias modernas, a padronização
extrema dos meios de transmissão do conhecimento que acaba por excluir os
alunos que possuem características que não se adequam aos métodos, dentre
outras questões que precisam ser profundamente consideradas para que a escola
prepare as novas gerações no sentido de edificar um mundo mais ético e sustentável.
Enquanto a escola não muda, os alunos
estarão cada vez mais desatentos. Na era da informação e do conhecimento em
massa, a escola e seus métodos arcaicos serão cada vez mais desinteressantes. O
problema não está nas crianças. É preciso reformular a escola para que
acompanhe as transformações de nossa sociedade. E para tanto o conhecimento da
criança e suas etapas de desenvolvimento precisam ser considerados. Com essa
sabedoria, poderemos demonstrar que a criança desatenta precisa de novas
práticas para que possam aprender a lidar com a própria mente. É na busca da
excelência no processo de educar que a Ritalina perderá seu conceito, sua
importância.
Uma nova escola para que perdure e seja aceita pela sociedade deverá ser uma escola que amplie ainda mais a capacidade dos seus alunos de adquirir conhecimento e, principalmente, ter gosto pelo conhecimento. A grande questão que os educadores precisam focalizar no momento é de como resgatar nas crianças de hoje a vontade absoluta pelo conhecer, a curiosidade que lhes é tão natural. Ensinar as matérias fundamentais não pode mais ser algo distinto dos sentidos das existências particulares de cada um. O conhecimento precisa estar atrelado ao desenvolvimento pessoal de uma maneira que faça sentido e que seja absolutamente livre de pressões punitivas. Uma nova ética se faz necessária através dos exemplos que a própria escola deve cultivar. A busca pelo conhecimento precisa ser demonstrada pela força da própria natureza, através do saber a respeito do desenvolvimento da criança.
Reconhecer que os modelos educacionais vigentes, estes mesmos que são adotados desde o final do século XVII, são causas diretas das manifestações negativas no aprendizado das crianças é um primeiro passo na formulação das questões essenciais que precisam ser debatidas para que a escola se transforme, de fato. E essa nova escola deve ser plenamente capaz de demonstrar que o grau de aprendizado pode se elevar através de práticas mais inteligentes. Está na mão dos educadores a disposição para transformar.
Uma nova escola para que perdure e seja aceita pela sociedade deverá ser uma escola que amplie ainda mais a capacidade dos seus alunos de adquirir conhecimento e, principalmente, ter gosto pelo conhecimento. A grande questão que os educadores precisam focalizar no momento é de como resgatar nas crianças de hoje a vontade absoluta pelo conhecer, a curiosidade que lhes é tão natural. Ensinar as matérias fundamentais não pode mais ser algo distinto dos sentidos das existências particulares de cada um. O conhecimento precisa estar atrelado ao desenvolvimento pessoal de uma maneira que faça sentido e que seja absolutamente livre de pressões punitivas. Uma nova ética se faz necessária através dos exemplos que a própria escola deve cultivar. A busca pelo conhecimento precisa ser demonstrada pela força da própria natureza, através do saber a respeito do desenvolvimento da criança.
Reconhecer que os modelos educacionais vigentes, estes mesmos que são adotados desde o final do século XVII, são causas diretas das manifestações negativas no aprendizado das crianças é um primeiro passo na formulação das questões essenciais que precisam ser debatidas para que a escola se transforme, de fato. E essa nova escola deve ser plenamente capaz de demonstrar que o grau de aprendizado pode se elevar através de práticas mais inteligentes. Está na mão dos educadores a disposição para transformar.
Para finalizar essa reflexão, deixo
abaixo link de um artigo sobre os efeitos da meditação nos processos
psicossomáticos e cognitivos. Essa prática é apenas uma das ideias possíveis de
se utilizar para o desenvolvimento de crianças e jovens que necessitam aprender
a lidar com a própria potência de viver:

