quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Intolerância (II): a repressão do feminino


(Continuação das reflexões sobre intolerâncias)

Esse fragmento de um texto da antiguidade que apresento abaixo mostra um entendimento universalista do arquétipo da Grande Mãe, divindade reverenciada desde os primórdios da civilização (pra lá de 7.000 anos antes de cristo). Desde aqueles tempos, o culto à Deusa e ao feminino foi sendo suprimido pela consciência patriarcal, desenvolvendo os modos de pensamento e de convivência que a sociedade ocidental sustenta até os nossos tempos. O feminino arquetípico, hoje representado como símbolo na Virgem Maria, perdeu muitas de suas facetas, podendo-se mostrar apenas com o que interessa ao patriarcado: a subserviência, a devoção, a misericórdia, a pureza, a virgindade...

Pois que essas faces também são faces desse arquétipo, mas como na natureza, onde tudo é movimento contínuo, a Deusa também se transmuta na roda da existência, sendo a rainha da vida e da morte, da luz e da sombra, ela trás em sua força todas as potências e devires naturais de cada um dos filhos da Terra. Ao renegar esse arquétipo, o ser humano passou a priorizar o desenvolvimento da consciência e da razão, deixando na escuridão todos os tormentos de sua alma. Deixou de olhar para dentro de si para acreditar no dogma da fé imposta e institucionalizada. Passou a chamar de demônio e de mal seus impulsos primais, como se pudesse simplesmente descola-los do próprio corpo.

A pressão que se faz para reprimir de dentro o que nos ensinam a rejeitar se vê projetada nas relações de poder, nos corpos enrijecidos, nas ideias inflexíveis, nos medos, nos muitos medos, nos tantos medos que os vemos na arquitetura das cidades, nos olhares desconfiados, na forma como educamos as crianças... E essa sociedade patriarcal, sem sua mãe, nem sabe mais o que é ser humano - fica se questionando: “mas isso é humano?”.

Se hoje o universalismo é um movimento importante na transformação de muitos dos paradigmas da sociedade ocidental, vejamos, através desse texto, que esse não é um conceito novo, mas algo que precisa ser resgatado através de existências que também acolham seus opostos, que permitam que a vida se desenvolva em sua integridade, na aceitação de prazer e dor, luz e sombra, vida e morte. Reconectar-se com sua própria natureza, e à natureza que o circunda, é o desafio que o homem deve se propor nesse momento de crise. O ser humano que busca equilibrar suas forças psíquicas, aceitando os fatos naturais da existência, torna-se mais capaz de aceitar a própria diversidade da vida. E estará mais receptivo ao outro, mesmo através de suas diferenças. Perceber que as intolerâncias são fatos consequentes do tipo de cultura que se desenvolve no ocidente é um primeiro passo para buscarmos uma revolução em nosso pensar que permita convivermos com mais harmonia.

“Sou aquela que é a mãe natural de todas as coisas, senhora e soberana de todos os elementos, a progênie original dos mundos, principal dos poderes divinos, rainha de todos os que estão no inferno, comandante daqueles que habitam o céu, manifestada unicamente sob a forma de todos os deuses e deusas. À minha vontade disponho os planetas do céu, os saudáveis ventos marítimos e os silêncios deploráveis do inferno; meu nome, minha divindade é adorada por todo o mundo, de diversas maneiras, em costumes variados e por muitos nomes.

Pois os frígios que são os primeiros de todos os homens chamam-me Mãe dos deuses do Pessinus; os atenienses, autóctones, de Minerva Cecrópia; os cipriotas, cingidos pelo mar, de Vênus Pafiana; os cretenses sagitíferos, de Diana Dictina; os sicilianos, que falam três línguas, de Prosérpina Estígia; os nativos de Elêusis, de Ceres Acteana; para alguns Juno, para outros Belona e outros Hécate, para outros ainda Ramnúsia. Já ambos os tipos de etíopes que habitam o Oriente e são iluminados pelos raios do sol da manhã e os egípcios, excelentes em todas as espécies de doutrinas antigas e acostumados a adorar-me em suas próprias cerimônias, chamam-me pelo meu verdadeiro nome, Rainha Ísis.”


Palavras da Deusa Ísis dirigidas a seu iniciado Apuleio (150 D.C.), em citação retirada de “As Máscaras de Deus – Mitologia Ocidental”, de Joseph Campbell

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