sexta-feira, 14 de março de 2014

Sobre a educação do corpo...



Diz-se que as primeiras influencias significativas que o filósofo Sócrates produziu na sociedade ateniense ocorreram em encontros realizados nos chamados Ginásios (Paidéia, Werner Jaeger, p. 522). Os ginásios eram locais de celebração do corpo através do atletismo. Para o grego antigo, a educação, ou Paideia, envolvia o desenvolvimento global do ser humano, sendo que o desenvolvimento do intelecto caminhava junto ao desenvolvimento do corpo e de suas habilidades. No ambiente dos ginásios, Sócrates reunia pessoas de diferentes idades para transmitir seu conhecimento e instigar a reflexão filosófica.

O culto ao corpo para os gregos não era uma mera vaidade. Envolvia o desenvolvimento de técnicas e atitudes que se integravam ao modo de conceber a existência. Nutrir um corpo belo e saudável era uma atitude perante a si mesmo e uma forma de reverenciar a vida. Porém, como educação, este fato não estava desatrelado do desenvolvimento das capacidades intelectuais, de adquirir conhecimento, saber se expressar, saber governar e saber agir de forma ética. A educação moderna, mais precisamente as escolas, foi influenciada por alguns conceitos oriundos da antiga Grécia, mas pouco assimilaram da essência desse pensamento, pois o objetivo da escola moderna muito difere das aspirações dos antigos gregos sobre a formação do ser humano.

A educação física é uma das matérias presentes nas escolas modernas que carregam um tanto dessa influência. Mas, sua origem remete a uma educação dos corpos de caráter mais disciplinar, no sentido de fazer que as crianças desenvolvam corpos dóceis, obedientes, capazes de se portar de acordo com as normais institucionais da escola. Dessa origem no século XVIII até hoje as propostas e técnicas se diferenciaram, mas pouco se vê a respeito de uma conexão entre a educação dos corpos e a educação do intelecto. Desenvolveu-se, de acordo com as novas necessidades da sociedade, uma educação física mais focada na solidariedade, no trabalho em equipe, no jogo coletivo e na competitividade. Mas dificilmente se encontra uma educação física que faça a criança perceber a si mesma, perceber seu corpo, tomar consciência de sua postura ou mesmo relacionar essa postura corporal com sua postura mental, psíquica. Também não se relaciona o que é realizado na educação física com o conhecimento adquirido em sala de aula. Tornam-se momentos distintos. A educação física é a hora da diversão (ou do tédio) e a sala de aula é o momento do trabalho.

É fundamental essa separação, pois diz respeito e um conceito mais amplo de educação. Hoje temos conhecimento suficiente para relacionar conflitos psíquicos com a somatização de tensões pelo corpo e de posturas em relação à vida que imprimem posturas corporais. Vou dar dois exemplos de experiências pessoais que demonstram essa ideia:

No trabalho clínico com adolescentes, muitas vezes me deparei com a dificuldade de, naquele ambiente, possibilitar que se expressem, que falem sobre si mesmos. Essa é uma dificuldade muito comum, mas sempre procurei me questionar até que ponto o ambiente clínico também representava uma restrição para que o adolescente pudesse se sentir a vontade e se manifestar. Dentre os muitos fatores possíveis para serem pensados, considerei o fato de que aqueles adolescentes passavam boa parte do dia sentados em cadeiras nas salas de aula de suas escolas. Talvez o ambiente clínico não representasse algo muito diferente disso. Então passei a fazer movimentos diferentes, a tirá-los da cadeira e propor exercícios corporais, de respiração e de atenção ao corpo. Essas experiências me mostraram primeiramente que esses adolescentes se encontravam em um estado tal de falta de percepção e alienação para com o próprio corpo que realizar um simples movimento para que prestassem atenção na respiração gerava reações desproporcionais. Espanto, incrível curiosidade, gargalhadas, etc. Prestar atenção no próprio corpo também permitia um movimento diferenciado que relaxava as tensões geradas pelo ambiente clínico e aumentava a vontade de falar. Constatei também a profunda ligação simbólica entre as partes do corpo focalizadas e o conteúdo verbal que começava a se manifestar. A postura da coluna, por exemplo, geralmente se conectava com situações de opressão que o adolescente não sabia como lidar. A respiração atenta e cadenciada liberava tensões relacionadas a estresses vivenciados na escola. O pescoço muito rígido trazia limitações na percepção de situações que precisavam ser trabalhadas, conscientizadas. Perceber os movimentos das mãos se relacionava a histórias afetivas com a família e amigos mais próximos.

O que essa experiência demonstra essencialmente é que o conhecimento do corpo ajuda na compreensão de si mesmo. Outro exemplo que gostaria de expor é a respeito de minha própria experiência de conexão consciente com o corpo. Comecei há alguns meses a praticar Kung Fu. Até então, levava uma vida sedentária. Tomei essa decisão quando percebi que estava ficando cansado mesmo após noites bem dormidas, além de estar sempre sofrendo de alguma dor, em diferentes partes do corpo. No início, treinar uma arte marcial me pareceu algo muito surreal e duvidava de que eu poderia realizar todos aqueles movimentos. Mas, minha dúvida comigo mesmo não era mais forte do que a imensa alegria que sentia pelo simples fato de estar movimentando o corpo, forçando-o, alongando-o. As dificuldades para quem inicia a prática do Kung Fu podem ser muitas. No meu caso, além das óbvias limitações físicas de um corpo que esteve por muito tempo no sedentarismo, também senti o desafio que era ter que sincronizar movimentos e decorá-los. Não era apenas uma atividade física, pois estava o tempo todo exercitando a mente. Após um tempo, quando o ritmo dos treinos parecia começar a tornar-se muito repetitivo, sem muitos progressos, pude ter meu momento de êxtase. No meio de uma atividade frenética de treino de chutes, fui tomado por um estado de consciência ampliada onde pude sentir cada músculo do meu corpo acordar. Senti as tensões e as histórias que elas continham. Senti minhas fraquezas mentais e como elas limitavam a atividade corporal. Senti meus medos, senti minhas dúvidas. E senti um fluxo energético fluindo por todo o meu corpo até chegar aos olhos. Então, fui mais preciso, mais leve e ao mesmo tempo mais forte. Senti-me mais confiante, mais paciente. E a partir desse momento o Kung Fu passou a ser algo realmente prazeroso, além de um estudo profundo a respeito do que sou e de até aonde posso chegar.

Uma educação do corpo é parte da essência da educação. Não se pode negligenciar simplesmente as necessidades físicas de um ser humano, forçando-o a aceitar as condições limitadoras de uma sala de aula. Considerar a indisciplina nesse ambiente fruto somente de falta de respeito é ter a percepção muito limitada frente ao que é o ser humano e de como ele se desenvolve. Não se pode fazer uma educação que pretende transmitir conhecimento, mas que ao mesmo tempo produz tensões e inconsciência a respeito do corpo. A educação física precisa ser repensada para que dê conta de fazer com que o estudante possa ter consciência de si também nesses aspectos. Fatiar o conhecimento em áreas distintas é abrir mão da verdade psicológica da existência: Tudo em nós é interligado. Corpo e mente.

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