quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Escolarização e genocídio cultural



Este documentário “pesquei” nas lidas do Facebook através do professor Eduardo Bonzatto, que foi meu professor nas minhas aventuras como estudante de Ciências Sociais na PUC de São Paulo, quando eu era ainda meio adolescente. Achei bem significativo tê-lo assistido e também por ter sido sugestão desse professor que muito me fez pensar sobre educação em uma época em que acreditava que estudando as “ciências da sociedade”, poderia contribuir de alguma forma para uma enorme revolução.

Fato é que essas aulas contribuíram também para que eu abandonasse o curso e migrasse para a psicologia. A mudança paradigmática que me ocorreu enquanto estudante foi bastante simples: a questão essencial que buscava não estava permeando as estruturas da sociedade (ou das escolas). Estava na alma. Era existencial, e, portanto, se eu fosse continuar me aventurando academicamente, deveria me focar nas ciências da psique. Essa foi uma escolha pessoal e fundamentalmente não há nenhuma verdade absoluta na lógica desta decisão, pois hoje me parece claro que o autoconhecimento não é um privilégio de intelectuais, tampouco algo que se possa desenvolver apenas através de livros ou aulas na universidade. Apenas percorri caminhos óbvios para alguém que nasceu e foi educado em um ambiente onde o desenvolvimento acadêmico tornou-se, no mínimo, uma exigência.

O conhecimento acadêmico é vasto, intenso, rico em possibilidades, propicia transformações, faz nascerem sonhos e também geram dúvidas, crises que favorecem o desenvolvimento do ser humano. É um caminho honrado. Mas não é o único. Tampouco pode ser considerado o mais elevado, o mais nobre. O desenvolvimento de um ser humano não pode ser calculado, medido, direcionado conforme regras, instruções, comportamentos. A imprevisibilidade da existência sempre dá brechas para outros desafios, outras perspectivas. Tive muitas aulas sobre o desenvolvimento do ser humano na universidade. Estudei Piaget e cada fase da criança. Nada disso me preparou para o dia do nascimento da minha filha. Tampouco encontrei utilidade nas descrições do comportamento da criança de Piaget ou nos esquemas “infalíveis” da psicologia comportamental para compreender o crescimento e o aprendizado das muitas crianças que me foram confiadas para cuidar e ensinar. Talvez os livros servissem de guias estimuladores de ideias, de fomentadores de sonhos ou processos criativos, mas a experiência com o outro é única. No contato com o outro, não sou o psicólogo capaz de entender cada questão existencial, sou apenas mais uma existência que se propôs a estar nesse papel. As técnicas que aprendi, os conceitos que absorvi, servem até certo ponto, pois sua utilidade real é apenas discursiva: Eu posso falar de processos inconscientes através de uma perspectiva Junguiana e refletir sobre um caso com base nesses conceitos, mas o grau de percepção do outro não é ditado por aquilo que aprendi com os livros. O que nos conecta é o encontro de existências, e da minha parte sei que um olhar de uma criança que sofre está relacionado com sentimentos que me afloram de acordo com o que vivi, experimentei e busquei compreender. Se eu produzo um relatório com as bases científicas de minhas observações, não significa que foi assim que percebi pela primeira vez aquele sofrimento. Se pararmos para pensar um pouco, aquilo que estrutura nossa psique e nossos sentimentos são gestos muito simples. O que afina o nosso coração para receber o outro são sentimentos verdadeiros, mais conectados com aquilo que, aos poucos, descobrimos ser parte do que realmente somos.

Este documentário é um alerta, pois mostra a face de uma prática que tem em sua fundamentação discursos que falam de inclusão, de resolução da pobreza, de desenvolvimento, mas que na verdade se configura como instrumentos de poder para varrer do planeta outras possibilidades de existência. Ao propor uma educação universalista, o que ocorre é um processo de disciplina das novas gerações para que elas deixem de aceitar o modelo de vida milenar de suas famílias para adentrarem no mercado de trabalho capitalista. E isso só acontece quando se passa a desvalorizar o conhecimento de um povo para enaltecer um modelo de conhecimento desenvolvido pelas sociedades ocidentais, centradas na cultura norte americana. Essas crianças desaprendem suas línguas maternas, deixam seus lares, perdem a oportunidade de aprenderem riquezas inestimáveis de suas culturais natais para se iludirem com os mecanismos educacionais alienantes da escola moderna. Alguns, pouquíssimos, conseguirão ter alguma oportunidade de enriquecerem, mas a maioria seguirá o caminho comum do trabalho técnico, de baixa remuneração e serão destinados a trilhar uma vida pobre em sentido e significado.

Como nasci em uma cultura ocidental em condições de me educar até o nível universitário, para mim esse caminho foi apenas comum. Muitos que trilham esse caminho acabam se fixando em ideias que se baseiam nos discursos de desenvolvimento de nossa civilização, e para esse tanto pensar em inclusão social no sentido de proporcionar que todos tenham acesso a um só modelo educacional parece natural. O que ocorre, no entanto, é que o modelo de ensino padronizado tem como consequência a formação de discursos e pensamentos também padronizados. A inconsciência em relação a novas formas de pensar a existência é uma ignorância velada pelos floreios acadêmicos e pela persona formada no status social que uma educação acadêmica proporciona. Infelizmente, as consequências dessa inconsciência são extremamente graves. Para todos. Mas para essas culturas retratadas nesse documentário, é um verdadeiro desastre.

Meus agradecimentos ao meu professor Eduardo Bonzatto, por mais essa oportunidade de reflexão. Não me recordo com precisão dos textos interessantes que você propunha para debatermos em aula. Mas tenho vivas as lembranças de um novo jeito de ensinar. Isso me faz pensar que o problema não é a escola em si, mas a postura que nos fixamos em relação ao ensino. O problema não é levar um conhecimento universal para o Tibete, o problema é fazer desse conhecimento um mecanismo de poder destruidor de uma cultura milenar. Acredito, professor, que se você fosse enviado para um lugar desse, abandonaria as salas de aula e subiria aquelas montanhas, feliz por estar indo aprender um tanto com aquele povo incrível. E assim, no diálogo, produziria as verdadeiras riquezas de que precisamos. 



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